sábado, 17 de maio de 2014

Livros dos Mortos, I-IV



            Livro 1 – Aquele que escuta

I - Frio na espinha

Miguel acordou, mas ainda não era hora da escola.
E esse foi seu erro, pensou. Ter acordado. Era algum horário no meio da madrugada e seu corpo todo se arrepiava vendo as sombras na parede branca que estava há alguns centímetros de seu rosto. Sombras que dançavam a medida que o vento soprava nas arvores iluminadas por postes de luz lá fora.
Havia se transformado em um hábito há algum tempo acordar no meio da noite com a sensação – certeza – de estar sendo observado.
Não se mexeu na cama. Ao invés disso ficou encarando a parede. Isso mantinha a ilusão de que se pensassem que estava dormindo, perderiam o interesse e iriam embora. Estava silencioso. Conseguia escutar o Tec-tec que o relógio da sala fazia. Tinha curiosidade sobre as horas que aquele relógio tinha tanto interesse em querer mostrar, mas não abandonaria seu posto, como alguém que finge morte para afastar um predador.
Não se atreveria a olhar para trás.
Não sabia quantos eram – se é que estavam lá – mas tinha a incomoda certeza de que eram exatos 6. Não respiravam, não se moviam, não falavam e nem sequer faziam qualquer mínimo som, mas estavam lá, quietos e olhando-o fixamente sentados no escuro com seus olhos mortos e sem brilho. Ele sabia que estavam ali, mas não se atrevia a virar para a direção deles para confirmar. Preferia se agarrar a uma vaga esperança de que era apenas uma paranóia sua. Sua insônia era injustificada, ele pensava. Não havia nada, exceto ele e sua mente perturbada. Nada de estranho ou extraordinário. Vultos e mais vultos e coisas que deixariam louco qualquer um. Tranqüilizava-o pensar em si mesmo como um esquizofrênico ou qualquer coisa do tipo. Mas ele não tinha nenhum tipo de medo extremo e não costumava falar com o que pensava ser suas alucinações. Claro que seu coração batia forte, dando marteladas incessantes no peito todas as vezes que tentava criar coragem para mostrar para eles que estava acordado, mas isso não era uma síndrome, pensava. Talvez síndrome fosse sua mania de ficar quieto como um animal morto quando se sentia observado.
            Talvez.
            Após incontáveis minutos ele dormiu, mas não antes de sentir sua espinha gelada como se algo ou alguém que não deveria estar ali estivesse olhando para sua nuca nua que ele era incapaz de cobrir.
Miguel dormiu e com nada sonhou. Seus sonhos eram negros, assim como sua vida.
           
II - Um Aviso
           
            Primeiro dia na escola nova.
            A escola ficava há incríveis 700 metros de sua casa. E não, ele não tinha nenhum amigo nela. Ao que parecia, e até onde Miguel sabia, ele se assemelhava a um repelente vivo para pessoas. Ninguém chegava muito perto. Ninguém parecia se sentir a vontade quando muito próximo dele. Dava para notar isso só de olhar ele chegar e as pessoas abrindo espaço como se algo muito incomodo passasse por elas.
            Parou para olhar o mural de informações.
            – Quando termina suas aulas? – Perguntou alguém.
            – Quê? – Ele foi pego de surpresa.
            O cara que fez a pergunta era um negro enorme que parecia ter aparecido do nada. Tinha pelo menos dois metros de altura, e era enorme em todos os aspectos. Era razoável dizer que ele poderia esmagar um crânio humano com um soco. O homem estava vestido com uma roupa meio desgastada e suja, e tinha algo estranho nela. Por algum motivo, era um pouco difícil de olhar nos olhos dele. Pareciam ser vazios e não sem fim, como se o ato de olhar nestes olhos pudesse fazer a alma se perder ali dentro.
            – Perguntei a que horas termina suas aulas.
            “Terminam”, pensou Miguel, mas resolveu que corrigir alguém daquele tamanho era meio arriscado. Nem mesmo passou por sua cabeça que era estranho um cara daquele tamanho aparecer do lado e simplesmente perguntar uma coisa absurda daquelas. Ele era o tipo de garoto que para responder, só necessitava que fizessem perguntas.
            –Hã... umas 18:30 acho.
            –Cuidado.
            –Certo.
            –Com quem você tava falando? – Perguntou um outro garoto.
Esse outro garoto era magro. Mas não meio magro. Ele era muito magro. E outra coisa curiosa era o fato de ele ser pálido e tremer o tempo inteiro.
            –Com... – Miguel olhou, mas não viu mais ninguém em volta – Comigo mesmo.
            –Ah.
            –É, eu tenho essa mania. Não sei se você percebeu, mas todo mundo me acha meio doido, por isso ninguém chega muito perto.
            O outro garoto sorriu. Parecia ter achado aquilo engraçado dito por alguém como Miguel.
Enquanto o fato curioso sobre o garoto pálido era ser magro ao extremo, Miguel era muito pequeno para a idade. Ambos estavam, no momento, no primeiro ano do ensino médio, mas Miguel parecia um moleque de doze anos.
            –Eu não me importo – Disse o garoto muito magro – todo mundo me acha estranho também.
            –Então a gente pode começar a andar no recreio para não sermos tão isolados assim.
            –Beleza.
            Durante a ida para a sala de aula, o que a mente absurdamente lerda de Miguel captou de tão estranho no cara enorme veio como um flash: Suas roupas pareciam velhas. Muito velhas.

III - Apresentação
           
            Primeiros dias de aulas são sempre um saco. Os professores fazem aquelas baboseiras de joguinhos de apresentação para quebrar o gelo, mas nunca parece dar certo. Miguel odiava aquilo. Todo mundo tinha cara de tédio, mas seguiam professores como ovelhas.
            –Então, vamos começar. Primeiro eu, depois vocês. Nome, idade, sonho, e qualquer outra coisa que queiram acrescentar.
            Puts, sonho?, pensou Miguel.
            O professor era um quarentão meio alternativo. Usava sandálias, jeans surrado, uma camisa branca com pinturas feitas a mão por crianças, era careca e usava cavanhaque.
            –Meu nome é Marcelo, tenho 42, e meu sonho já se realizou. Quando era garoto, eu queria ser professor.
            Parece mais velho. Eu daria uns 47 pra esse cara.
            As apresentações foram indo e um por um idiota atrás do outro foi seguindo a apresentação. Um deles disse que queria ser lixeiro, querendo parecer engraçado. Sempre tinha um assim. Eram imitações de imitações de imitações. Todo ano tinha um cara querendo ser engraçado que copiava outros que tentavam ser engraçados. Mas no fim era só um bando de babacas querendo chamar a atenção para si e conseguir umas meninas no decorrer do ano.
            Claro, eles sempre conseguiam cumprir esses objetivos.
            –Meu nome é Miguel, tenho 15 anos e sonho...
            Ele nunca pensou a respeito de seus sonhos, essa era a verdade. Se arrependeu de não ter pensado nisso enquanto xingava todo mundo mentalmente enquanto se apresentavam, porque enquanto pensava em seu sonho, alguém formulava piadas.
            –Quinze? – Lá vem, pensou Miguel – achei que era algum moleque do fundamental que errou a escola.
            Não era impossível. A escola de ensino fundamental ficava do outro lado da rua. Todo mundo riu do comentário do engraçadinho. Até o professor esboçou um sorriso como se incentivando a levar na esportiva. Apesar de idiota, ele sabia bem usar as palavras.
            –Pois é... – Miguel disse – Bom, eu sonho em fazer algo notável um dia. Não é bem um sonho. Eu só queria fazer algo no mundo que valesse a pena, algo importante, sei lá.
            A essa altura, Miguel era um tomate maduro. Todo mundo estava encarando ele.
            –É um bom sonho – Se limitou o professor – Próximo.
            E assim foi se seguindo.
            Algumas pessoas encaravam o menor garoto da sala como se tentassem entender de onde surgiu aquilo. Ou pareciam ter um pequeno brilho nos olhos como se com aquelas palavras ele tivesse resumido o sonho interno de qualquer um ali. Fazer algo importante.
            Mas claro, esses momentos são passageiros e praticamente inexistentes, exceto para o protagonista dessas cenas.
            Miguel jamais esqueceria aquele momento bobo onde teve mais coragem do que nunca na vida de se destacar por alguns momentos.
            Seria seu momento e de mais ninguém.
            Assim como suas obrigações que começariam em breve. Suas obrigações e de mais ninguém.

            IV - Dois estranhos

            Miguel estava andando no pátio. Não tinha visto novamente o garoto que tremia o tempo todo, mas não tinha importância. Gostava de tirar os primeiros dias para dar uma volta nas escolas novas para conhecê-las. Era algo importante para ele: conhecer o ambiente. Verificou dois terços da escola até encontrar um lugar tranquilo para ficar. Era um chão de cimento com pequenas irregularidades, uns restos de tijolo aqui e ali e mato nascendo nas brechas do chão. Ficava ao lado da sala dos professores. Era como se tivessem planejado construir uma sala ali, mas fizeram só o chão.
            Sentou ali mesmo e ficou olhando para o resto da escola. O terreno era íngreme, a começar de onde ele estava sentado e ia descendo como uma pequena ladeira. Era um lugar tranquilo. Tinha grama pra caramba, tinha uma quadra de basquete / futebol / vôlei / qualquer coisa, tinha duas mesas de pingue-pongue, tinha um pavilhão abandonado logo depois e muitas arvores. Até que era um lugar aconchegante.
            –Oi – Disse o garoto muito magro com sua tremedeira costumeira.
            Ele também estava dando uma olhada na escola. No fim das contas talvez fosse algo bem comum de se fazer, pensou Miguel.
            –Eaí – Disse Miguel – Senta aí.
            Miguel, que tinha era perceptivo como uma pedra em seus dias bons, notara que o rapaz tremia – e só porque era algo bem notável – mas normalmente não faria perguntas à respeito, exceto que notou que era um dia bem quente aquele para alguém tremer tanto.
            –Cara, por que você treme tanto?
            –Hã? – Disse o outro aéreo – Ah!. Eu não sei.
            –Tá com febre ou coisa assim?
            Outra característica marcante de Miguel é que ele raramente adoecia – O que era bom, porque seus pais não o levariam em hospital nenhum –, então não sabia bem o que mais fazia alguém tremer.
            –É, um pouco. Essas coisas me acontecem desde bem criança.
            –Ah, e seus pais nunca souberam o que você tem?
            –Não sei.
            –Como não sabe?
            –É que eles morreram num incêndio quando eu era muito pequeno – disse sem dar importância.
            –Err... me desculpa.
            –Relaxa, eu nem lembro como eles eram.
            Ficaram calados por um tempo, mas Miguel estava meio curioso sobre o rapaz. Talvez porque ele falasse pouco já que Miguel nunca conversava muito com ninguém.
            –Você tava com a sua avó ou coisa assim?
            –Hã?
            Miguel pensava que tinha achado finalmente alguém tão lerdo quanto ele para diálogos.
            –Quando o incêndio aconteceu, você tava com algum parente?
            –Não, eu tava em casa.
            –Bem onde seus pais morreram?
            –Isso.
            –E você, sendo só um bebê, sobreviveu.
            –É... – Ele parecia bem desconfortável com a conversa agora. – Ninguém sabe explicar, e eu não sou muito curioso.
            –Percebi. Cara, isso é estranho.
            Daí o rapaz foi ficando mais desconfortável, talvez porque era chamado de estranho todos os dias por outras pessoas e já era bem chato.
            –Mas relaxa – disse Miguel, com o pouco de tato que Deus deu à ele – Você deve ter percebido que eu sou bem esquisito.
            –Não é tanto quanto eu.
            –Cara, você nem sabe o quanto.
            Conversaram até o fim do intervalo. Miguel acabou, no fim da conversa, por perguntar o nome do garoto, percebendo que não sabia desse detalhe. Anderson – que era o nome do moleque muito magro que tremia muito – acabou revelando que em sua vida acabaram acontecendo outros dois incêndios de origem desconhecida, totalizando três. Seus pais adotivos sabiam só de dois, o incêndio que matou seus pais biológicos e o que aconteceu na ultima escola onde estudou. Mas tinha um terceiro que aconteceu num dos orfanatos por onde passou. Anderson não falou muito sobre eles, só por alto, mas parecia esconder alguma coisa enquanto falava. Miguel não se importava, não tinha que se intrometer no assunto dos outros, talvez falassem sobre isso depois, já que pareciam ter ficado amigos.
            Depois do intervalo, tiveram mais duas aulas, mas essas passaram até rápido. A professora de filosofia faltou, então cada um fez o que queria. Miguel ficou pensando em incêndios. Com sua imaginação fértil ficou incendiando tudo que dava vontade. Incendiou a escola, incendiou os idiotas da escola fundamental do ano passado e incendiou o cabelo de moita da tia Maria, aquela velha chata que parecia uma bruxa. Começou a gargalhar pensando na velha correndo com um blackpower em chamas.
            –O miniatura endoidou – Disse o carinha que falou que ele errou de escola mais cedo.
            Duas meninas que estavam falando com ele começaram a rir como duas hienas, só para chamar a atenção dele. Miguel não sabia quem era mais idiota e apenas acenou com a cabeça esboçando um sorriso mais largo do que gostaria de mostrar – queria mostrar o dedo do meio, mas tudo bem – fingindo levar na esportiva, o retardado nem deu bola e voltou a ficar alugando as meninas da sala.
            No fim das aulas, quando todo mundo estava indo embora, Miguel por acaso olhou para a escola de ensino fundamental que ficava do outro lado da rua – A que o espertão da sala fez piada – e viu uma menina bonitinha que parecia ser da sexta ou da sétima série conversando com um homem careca. Por algum motivo, ficou um tempo observando os dois. Ele parecia convidar ela para alguma coisa, e ela recusar com rubor no rosto.
Depois de um tempo, se percebeu parado olhando para eles. Poderia não ser nada, a não ser uma conversa entre pai e filha. Não tem nada demais, pensou ele. Então por que Miguel sentia um certo incomodo nisso, como uma pequena agulha espetando sua consciência? Não fazia ideia, mas sabia que odiava esse negócio de intuição, vidência e essas merdas que quase ninguém tem e que se sentia muito feliz em considerar besteira até uns meses atrás. Ignorou sua intuição, e foi andando. No mesmo instante, a menina atendeu o celular, deu tchau para o homem e foi seguindo na direção por onde Miguel iria passar em alguns momentos. Ele teve uma sensação desconfortável sobre destinos cruzados. Não era algo para se entender, somente para sentir. E quando a menina passou por ele já desligando o celular, sentiu um choque percorrer seu corpo. Ele queria que não fosse nada, mas ao olhar nos olhos do homem, enquanto andava, viu que este retribuía o olhar, e tinha algo de errado ali, nada que ele pudesse processar, porque se sentiu constrangido e olhou para o chão aumentando o passo. A menina entrou no carro da mãe e foi embora, mas o homem continuou lá, parado, olhando duas crianças se distanciarem.