Livro 1 – Aquele que escuta
I - Frio na espinha
Miguel acordou, mas ainda não era
hora da escola.
E esse foi seu erro, pensou. Ter
acordado. Era algum horário no meio da madrugada e seu corpo todo se arrepiava
vendo as sombras na parede branca que estava há alguns centímetros de seu rosto.
Sombras que dançavam a medida que o vento soprava nas arvores iluminadas por
postes de luz lá fora.
Havia se transformado em um
hábito há algum tempo acordar no meio da noite com a sensação – certeza – de
estar sendo observado.
Não se mexeu na cama. Ao invés
disso ficou encarando a parede. Isso mantinha a ilusão de que se pensassem que estava dormindo, perderiam
o interesse e iriam embora. Estava silencioso. Conseguia escutar o Tec-tec que o relógio da sala fazia.
Tinha curiosidade sobre as horas que aquele relógio tinha tanto interesse em
querer mostrar, mas não abandonaria seu posto, como alguém que finge morte para
afastar um predador.
Não se atreveria a olhar para
trás.
Não sabia quantos eram – se é que
estavam lá – mas tinha a incomoda certeza de que eram exatos 6. Não respiravam,
não se moviam, não falavam e nem sequer faziam qualquer mínimo som, mas estavam
lá, quietos e olhando-o fixamente sentados no escuro com seus olhos mortos e
sem brilho. Ele sabia que estavam
ali, mas não se atrevia a virar para a direção deles para confirmar. Preferia
se agarrar a uma vaga esperança de que era apenas uma paranóia sua. Sua insônia
era injustificada, ele pensava. Não havia nada, exceto ele e sua mente
perturbada. Nada de estranho ou extraordinário. Vultos e mais vultos e coisas
que deixariam louco qualquer um. Tranqüilizava-o pensar em si mesmo como um
esquizofrênico ou qualquer coisa do tipo. Mas ele não tinha nenhum tipo de medo
extremo e não costumava falar com o que pensava ser suas alucinações. Claro que
seu coração batia forte, dando marteladas incessantes no peito todas as vezes que
tentava criar coragem para mostrar para eles
que estava acordado, mas isso não era uma síndrome, pensava. Talvez síndrome
fosse sua mania de ficar quieto como um animal morto quando se sentia
observado.
Talvez.
Após
incontáveis minutos ele dormiu, mas não antes de sentir sua espinha gelada como
se algo ou alguém que não deveria estar ali estivesse olhando para sua nuca nua
que ele era incapaz de cobrir.
Miguel dormiu e com nada sonhou.
Seus sonhos eram negros, assim como sua vida.
II - Um Aviso
Primeiro
dia na escola nova.
A escola ficava há incríveis 700 metros de sua casa.
E não, ele não tinha nenhum amigo nela. Ao que parecia, e até onde Miguel
sabia, ele se assemelhava a um repelente vivo para pessoas. Ninguém chegava
muito perto. Ninguém parecia se sentir a vontade quando muito próximo dele.
Dava para notar isso só de olhar ele chegar e as pessoas abrindo espaço como se
algo muito incomodo passasse por elas.
Parou para
olhar o mural de informações.
– Quando termina suas aulas? – Perguntou alguém.
– Quê? – Ele
foi pego de surpresa.
O cara que
fez a pergunta era um negro enorme que parecia ter aparecido do nada. Tinha
pelo menos dois metros de altura, e era enorme em todos os aspectos. Era razoável
dizer que ele poderia esmagar um crânio humano com um soco. O homem estava
vestido com uma roupa meio desgastada e suja, e tinha algo estranho nela. Por
algum motivo, era um pouco difícil de olhar nos olhos dele. Pareciam ser vazios
e não sem fim, como se o ato de olhar nestes olhos pudesse fazer a alma se
perder ali dentro.
– Perguntei
a que horas termina suas aulas.
“Terminam”, pensou Miguel, mas resolveu
que corrigir alguém daquele tamanho era meio arriscado. Nem mesmo passou por
sua cabeça que era estranho um cara daquele tamanho aparecer do lado e
simplesmente perguntar uma coisa absurda daquelas. Ele era o tipo de garoto que
para responder, só necessitava que fizessem perguntas.
–Hã... umas
18:30 acho.
–Cuidado.
–Certo.
–Com quem
você tava falando? – Perguntou um outro garoto.
Esse outro garoto era magro. Mas não meio magro. Ele era muito
magro. E outra coisa curiosa era o fato de ele ser pálido e tremer o tempo
inteiro.
–Com... –
Miguel olhou, mas não viu mais ninguém em volta – Comigo mesmo.
–Ah.
–É, eu
tenho essa mania. Não sei se você percebeu, mas todo mundo me acha meio doido,
por isso ninguém chega muito perto.
O outro
garoto sorriu. Parecia ter achado aquilo engraçado dito por alguém como Miguel.
Enquanto o fato curioso sobre o
garoto pálido era ser magro ao extremo, Miguel era muito pequeno para a idade.
Ambos estavam, no momento, no primeiro ano do ensino médio, mas Miguel parecia
um moleque de doze anos.
–Eu não me
importo – Disse o garoto muito magro – todo mundo me acha estranho também.
–Então a
gente pode começar a andar no recreio para não sermos tão isolados assim.
–Beleza.
Durante a
ida para a sala de aula, o que a mente absurdamente lerda de Miguel captou de
tão estranho no cara enorme veio como um flash: Suas roupas pareciam velhas. Muito
velhas.
III - Apresentação
Primeiros dias de aulas são sempre um
saco. Os professores fazem aquelas baboseiras de joguinhos de apresentação para
quebrar o gelo, mas nunca parece dar certo. Miguel odiava aquilo. Todo mundo
tinha cara de tédio, mas seguiam professores como ovelhas.
–Então,
vamos começar. Primeiro eu, depois vocês. Nome, idade, sonho, e qualquer outra coisa que queiram acrescentar.
Puts, sonho?, pensou Miguel.
O professor
era um quarentão meio alternativo. Usava sandálias, jeans surrado, uma camisa
branca com pinturas feitas a mão por crianças, era careca e usava cavanhaque.
–Meu nome é
Marcelo, tenho 42, e meu sonho já se realizou. Quando era garoto, eu queria ser
professor.
Parece mais velho. Eu daria uns 47 pra esse
cara.
As
apresentações foram indo e um por um idiota atrás do outro foi seguindo a
apresentação. Um deles disse que queria ser lixeiro, querendo parecer
engraçado. Sempre tinha um assim. Eram imitações de imitações de imitações. Todo
ano tinha um cara querendo ser engraçado que copiava outros que tentavam ser
engraçados. Mas no fim era só um bando de babacas querendo chamar a atenção
para si e conseguir umas meninas no decorrer do ano.
Claro, eles
sempre conseguiam cumprir esses objetivos.
–Meu nome é
Miguel, tenho 15 anos e sonho...
Ele nunca
pensou a respeito de seus sonhos, essa era a verdade. Se arrependeu de não ter
pensado nisso enquanto xingava todo mundo mentalmente enquanto se apresentavam,
porque enquanto pensava em seu sonho, alguém formulava piadas.
–Quinze? – Lá vem, pensou Miguel – achei que era
algum moleque do fundamental que errou a escola.
Não era
impossível. A escola de ensino fundamental ficava do outro lado da rua. Todo
mundo riu do comentário do engraçadinho. Até o professor esboçou um sorriso
como se incentivando a levar na esportiva. Apesar de idiota, ele sabia bem usar
as palavras.
–Pois é...
– Miguel disse – Bom, eu sonho em fazer algo notável um dia. Não é bem um
sonho. Eu só queria fazer algo no mundo que valesse a pena, algo importante,
sei lá.
A essa
altura, Miguel era um tomate maduro. Todo mundo estava encarando ele.
–É um bom
sonho – Se limitou o professor – Próximo.
E assim foi
se seguindo.
Algumas
pessoas encaravam o menor garoto da sala como se tentassem entender de onde
surgiu aquilo. Ou pareciam ter um pequeno brilho nos olhos como se com aquelas
palavras ele tivesse resumido o sonho interno de qualquer um ali. Fazer algo
importante.
Mas claro,
esses momentos são passageiros e praticamente inexistentes, exceto para o
protagonista dessas cenas.
Miguel
jamais esqueceria aquele momento bobo onde teve mais coragem do que nunca na
vida de se destacar por alguns momentos.
Seria seu momento e de mais ninguém.
Assim como
suas obrigações que começariam em breve. Suas obrigações e de mais ninguém.
IV - Dois estranhos
Miguel
estava andando no pátio. Não tinha visto novamente o garoto que tremia o tempo
todo, mas não tinha importância. Gostava de tirar os primeiros dias para dar
uma volta nas escolas novas para conhecê-las. Era algo importante para ele:
conhecer o ambiente. Verificou dois terços da escola até encontrar um lugar
tranquilo para ficar. Era um chão de cimento com pequenas irregularidades, uns
restos de tijolo aqui e ali e mato nascendo nas brechas do chão. Ficava ao lado
da sala dos professores. Era como se tivessem planejado construir uma sala ali,
mas fizeram só o chão.
Sentou ali mesmo
e ficou olhando para o resto da escola. O terreno era íngreme, a começar de
onde ele estava sentado e ia descendo como uma pequena ladeira. Era um lugar
tranquilo. Tinha grama pra caramba, tinha uma quadra de basquete / futebol / vôlei
/ qualquer coisa, tinha duas mesas de pingue-pongue, tinha um pavilhão
abandonado logo depois e muitas arvores. Até que era um lugar aconchegante.
–Oi – Disse
o garoto muito magro com sua tremedeira costumeira.
Ele também
estava dando uma olhada na escola. No fim das contas talvez fosse algo bem
comum de se fazer, pensou Miguel.
–Eaí –
Disse Miguel – Senta aí.
Miguel, que
tinha era perceptivo como uma pedra em seus dias bons, notara que o rapaz
tremia – e só porque era algo bem notável – mas normalmente não faria perguntas
à respeito, exceto que notou que era um dia bem quente aquele para alguém
tremer tanto.
–Cara, por
que você treme tanto?
–Hã? –
Disse o outro aéreo – Ah!. Eu não sei.
–Tá com
febre ou coisa assim?
Outra
característica marcante de Miguel é que ele raramente adoecia – O que era bom,
porque seus pais não o levariam em hospital nenhum –, então não sabia bem o que
mais fazia alguém tremer.
–É, um
pouco. Essas coisas me acontecem desde bem criança.
–Ah, e seus
pais nunca souberam o que você tem?
–Não sei.
–Como não
sabe?
–É que eles
morreram num incêndio quando eu era muito pequeno – disse sem dar importância.
–Err... me
desculpa.
–Relaxa, eu
nem lembro como eles eram.
Ficaram
calados por um tempo, mas Miguel estava meio curioso sobre o rapaz. Talvez
porque ele falasse pouco já que Miguel nunca conversava muito com ninguém.
–Você tava
com a sua avó ou coisa assim?
–Hã?
Miguel
pensava que tinha achado finalmente alguém tão lerdo quanto ele para diálogos.
–Quando o
incêndio aconteceu, você tava com algum parente?
–Não, eu
tava em casa.
–Bem onde
seus pais morreram?
–Isso.
–E você,
sendo só um bebê, sobreviveu.
–É... – Ele
parecia bem desconfortável com a conversa agora. – Ninguém sabe explicar, e eu
não sou muito curioso.
–Percebi.
Cara, isso é estranho.
Daí o rapaz
foi ficando mais desconfortável, talvez porque era chamado de estranho todos os
dias por outras pessoas e já era bem chato.
–Mas relaxa
– disse Miguel, com o pouco de tato que Deus deu à ele – Você deve ter
percebido que eu sou bem esquisito.
–Não é
tanto quanto eu.
–Cara, você
nem sabe o quanto.
Conversaram
até o fim do intervalo. Miguel acabou, no fim da conversa, por perguntar o nome
do garoto, percebendo que não sabia desse detalhe. Anderson – que era o nome do
moleque muito magro que tremia muito – acabou revelando que em sua vida
acabaram acontecendo outros dois incêndios de origem desconhecida, totalizando
três. Seus pais adotivos sabiam só de dois, o incêndio que matou seus pais
biológicos e o que aconteceu na ultima escola onde estudou. Mas tinha um
terceiro que aconteceu num dos orfanatos por onde passou. Anderson não falou
muito sobre eles, só por alto, mas parecia esconder alguma coisa enquanto
falava. Miguel não se importava, não tinha que se intrometer no assunto dos
outros, talvez falassem sobre isso depois, já que pareciam ter ficado amigos.
Depois do
intervalo, tiveram mais duas aulas, mas essas passaram até rápido. A professora
de filosofia faltou, então cada um fez o que queria. Miguel ficou pensando em incêndios. Com sua
imaginação fértil ficou incendiando tudo que dava vontade. Incendiou a escola,
incendiou os idiotas da escola fundamental do ano passado e incendiou o cabelo
de moita da tia Maria, aquela velha chata que parecia uma bruxa. Começou a
gargalhar pensando na velha correndo com um blackpower em chamas.
–O
miniatura endoidou – Disse o carinha que falou que ele errou de escola mais
cedo.
Duas
meninas que estavam falando com ele começaram a rir como duas hienas, só para
chamar a atenção dele. Miguel não sabia quem era mais idiota e apenas acenou
com a cabeça esboçando um sorriso mais largo do que gostaria de mostrar –
queria mostrar o dedo do meio, mas tudo bem – fingindo levar na esportiva, o
retardado nem deu bola e voltou a ficar alugando as meninas da sala.
No fim das aulas, quando todo mundo
estava indo embora, Miguel por acaso olhou para a escola de ensino fundamental que
ficava do outro lado da rua – A que o espertão da sala fez piada – e viu uma
menina bonitinha que parecia ser da sexta ou da sétima série conversando com um
homem careca. Por algum motivo, ficou um tempo observando os dois. Ele parecia
convidar ela para alguma coisa, e ela recusar com rubor no rosto.
Depois de um tempo, se percebeu
parado olhando para eles. Poderia não ser nada, a não ser uma conversa entre
pai e filha. Não tem nada demais,
pensou ele. Então por que Miguel sentia um certo incomodo nisso, como uma
pequena agulha espetando sua consciência? Não fazia ideia, mas sabia que odiava
esse negócio de intuição, vidência e essas merdas que quase ninguém tem e que
se sentia muito feliz em considerar besteira até uns meses atrás. Ignorou sua intuição, e foi andando. No mesmo
instante, a menina atendeu o celular, deu tchau para o homem e foi seguindo na
direção por onde Miguel iria passar em alguns momentos. Ele teve uma sensação
desconfortável sobre destinos cruzados. Não era algo para se entender, somente
para sentir. E quando a menina passou por ele já desligando o celular, sentiu
um choque percorrer seu corpo. Ele queria que não fosse nada, mas ao olhar nos
olhos do homem, enquanto andava, viu que este retribuía o olhar, e tinha algo
de errado ali, nada que ele pudesse processar, porque se sentiu constrangido e
olhou para o chão aumentando o passo. A menina entrou no carro da mãe e foi
embora, mas o homem continuou lá, parado, olhando duas crianças se
distanciarem.
