Anjo da Morte
Quando somos bem pequenas, aprendemos
pela mídia que um homem num cavalo branco, chamado preferivelmente de
“Príncipe” vai vir nos salvar da nossa vida miserável e nos fazer ser felizes para
sempre.
Não
é verdade.
Em
geral a natureza do homem sobrepõe a fantasia da mulher e isso é o que cria
destruição massiva de corações. Ou de vidas inteiras, em alguns casos.
A minha seria um desses
casos se ela não tivesse aparecido.
Eu não tinha mais
autoestima, nem mesmo conseguia ver beleza no meu corpo. O espelho era meu pior
inimigo. Não passava mais maquiagem e acredito que estava desenvolvendo
síndrome do pânico.
O meu reflexo me
incomodava ao ponto de sentir repulsa.
Você sentiria nojo de si
mesma?
O
motivo é bem simples. Odiar o que você própria representa para si, o que você
foi e o que vai ser. Odiar o que é o seu corpo e o que ele te remete, que
marcas foram feitas nele. Que cicatrizes nunca irão desaparecer.
Quando reflito sobre todas
essas pequenas tragédias na vida de tantas mulheres, eu a entendo.
A primeira vez que pensei
sobre o que ela fazia, me parecia muito frio. Mas a partir da segunda vez, já
apoiava ela de corpo e alma.
Nojo. É um sentimento
cruel para uma mulher. Um sentimento que homem nenhum jamais entenderia. Até
porque, geralmente são eles que nos causam isso.
Algumas de nós dizem
sentir nojo de homens. Mas é por nós mesmas que sentimos isso. O desprezo
começa primeiro de dentro.
Pensando bem, ela tinha
razão em tudo.
Nossa história começou há
alguns meses. A história dela, individualmente tem muito mais tempo. E em nossa
história nos tornamos o refúgio uma da outra. Viramos confidentes, viramos
irmãs. Viramos amantes.
Aconteceu que eu fui
estuprada.
Eu não sei se eu deveria
enrolar para dizer uma coisa dessas. Há algum tempo eu não diria, mesmo que em um
pedaço de papel. Antes eu tinha medo até mesmo que "ele" lesse meus
pensamentos no momento em que eu cogitasse os expor. Mesmo assim eu passei por
cima disso. Foi difícil, mas foi minha salvação.
Eu contei num fórum sobre
suicídios. Eu queria saber formas de me matar. Você pode achar absurdo, eu não
te culpo. Mas tenta pensar no que é um homem entrar na sua casa, tomar o seu
corpo a força e te fazer valer menos que lixo. Eu não entendi na ocasião. Ainda
não entendo. Como entender o que leva uma pessoa a fazer isso? Até agora eu não
sei muito bem como olhar nos olhos dos outros, principalmente de homens. Penso
inclusive, que cada um deles guarda um monstro latente dentro de si.
Ela me diz que não precisa
ser assim, que nem todos são monstros. Engraçado ela dizendo esse tipo de
coisa, aliás.
Depois de pedir conselhos
sobre maneiras de me suicidar sem muita sujeira, dor ou problemas, uma pessoa começou
a conversar comigo. Uma entre várias que me deram receitas diferentes para
suicídios efetivos. Ela, no entanto, estava interessada em mim, na minha causa.
Não na minha morte.
É engraçado, não é? Como a
gente confia em completos estranhos em momentos de desespero, mesmo num momento
que não confiamos nem em nós mesmos. E eu não pensei duas vezes. Eu disse para
ela. Eu disse que eu não me suportava e, ou eu morria ou aquele desgraçado
morria. Mas como ele ia morrer? Como sempre, parece improvável que o mal
aconteça com quem o merece. Na verdade, toda vez que o via no caminho para o
trabalho ou mesmo na vizinhança ele parecia bem saudável. Ninguém jamais
enxerga os monstros por baixo das máscaras. Ninguém vê o que alguém pode ser
realmente. E por algum distúrbio que nunca entenderei algumas vezes, as pessoas
más recebem melhores contribuições do universo do que as pessoas boas. Então
qual é o sentido disso?
Ela me disse que não tinha
nenhum. A vida não tem um sentido ou um propósito. O único propósito que a vida
tem é o que atribuímos a ela.
Acreditei por um instante
que ela me faria mudar de ideia, mas só o que ela me pediu era um tempo e eu
veria algo inesperado. Eu, mesmo sem conhecê-la, esperei mesmo assim.
Depois de um tempo é só o
que podemos fazer: esperar.
Eu esperava todos os dias.
Esperava por algo bom na minha vida. Por algo catastrófico na vida dele. Mas eu
estava me iludindo, eu pensava. Até que um dia ele apareceu morto num matagal
perto de casa. Garganta cortada e carteira roubada. Latrocínio. Não encontraram
o autor do crime. Eu fiquei chocada. Me senti culpada pelo que aconteceu, como
se os meus desejos tivessem se tornado realidade inesperadamente. Mas por mais
que eu não admitisse no momento, eu fiquei muito aliviada.
Aliviada porque não ia
sentir meu coração pesar toda vez que aquele demônio cínico me sorrisse na rua
como se não me conhecesse ou como se nem soubesse o que fazia com as pessoas.
Ou pior, como se soubesse, mas dissesse com seu sorriso que ninguém mais sabia,
só eu e ele.
Eu estava chocada, mas
estava em paz.
Depois de um tempo, minha
vida recomeçou. Eu poderia tocar ela pra frente de novo agora que eu não seria
mais assombrada por ele. Resolvi mudar de emprego. Comecei a pensar também em
mudar de endereço, e o fiz. Mesmo que ele estivesse morto, tínhamos conhecidos
em comum em todos os lugares. Eu não tinha que olhar para a cara deles. Eu
poderia cuidar da minha vida dali em diante, sem ninguém por perto. Eu tinha
pelo menos a liberdade de sumir, como bem eu entendesse.
Na ocasião, não me lembrei
da conversa com ela. Mas as coisas foram se tornando mais claras quando ela me
ligou.
–Alô – Eu disse.
–Oi – Disse uma voz
feminina do outro lado
–Quem fala?
–Um fantasma.
A única coisa que pensei
foi que a fantasma tinha uma voz bonita.
–E o que um fantasma deseja
de mim?
–Apenas que entenda que o
mundo é uma teia. E que nós mesmos é que tecemos tudo isso.
De repente a compreensão.
–Você é a...
–Exatamente – Fez uma
pausa – Também sou sua libertadora.
–Entendo.. – Eu então
devia para ela? – Então você me fez um serviço...
–Sim.
–Quanto eu te devo?
–Nada. Eu gostei de você.
Geralmente eu cobro antes, mesmo que uma doação singela, mas por algum motivo
que não sei dizer, você é diferente.
Eu não sei como deveria me
sentir. É difícil ouvir isso das pessoas. Acho que ela não tinha porque guardar
segredos. Eu nem mesmo sabia o nome real dela, ou o rosto, ou nada.
–Aliás, você me deve algo
sim – Ela disse.
–O quê?
–Uma promessa de continuar
viva.
Não era difícil. Eu não sentia
mais necessidade em me matar.
–Eu prometo.
–Ok, vê se cumpre sua
promessa, viu? – e desligou.
Chamada anônima. Sem
registro, sem nome, sem endereço. Ela era realmente um fantasma. E como um
fantasma descobre seu telefone quando você nem mesmo se identifica numa rede
social e muda de casa e de emprego, eu não saberia te dizer. Mas fantasmas
permanecem na sua vida, não importa o que se faça. E ela permaneceu, mas por um
tempo apenas como uma espécie de sonho que ainda não decidimos se é ou não
real.
2
Depois desse episódio eu
não ouvi mais falar dela e não recebi nenhuma outra chamada anônima. Ela tinha
desaparecido no ar da mesma forma que havia aparecido, como o fantasma que
afirmava ser. Por meses eu visitei o fórum no qual nos falamos a primeira vez,
e nem sinal dela. Nem mesmo um rastro de fumaça. Quase desisti. Foi quando eu
vi uma reportagem na TV que me chamou a atenção. Era, até então, uma reportagem
comum que se vê e se descarta diariamente. Só que depois do que aconteceu
comigo, nenhum tipo de notícia ligada à estupro se torna uma notícia meramente
comum. "Jovem acusado de estupro é solto por falta de provas”, era o que
dizia a reportagem. Foi inocentado e salvo de morrer como boneca na prisão. Mas
quando a justiça convencional falha, alguma outra pode começar a funcionar. Foi
assim que meu rastro de fumaça reapareceu e eu pude localizar sua fogueira.
O “inocente” morreu
enforcado em sua própria casa após tomar uma dose extra de remédios
controlados, e essa noticia foi ao ar no dia seguinte. O pensamento comum
levaria à suicídio pela culpa. Já que foi inocentado, era melhor para sua
consciência que ele mesmo desse cabo em sua vida. Mas qual é a falha lógica
nesse caso? Simples coisas como a expressão dele ao ser inocentado, por
exemplo. Não existia culpa ali. Homem auto-suficiente não sente culpa nem
remorso. Esse era o meu jogo dos sete erros. Ela era meu objetivo.
Eu poderia estar
completamente errada. Aquela minha salvadora misteriosa, minha fantasma, podia
não ter nada com isso. Mas era claro como o dia. Se não tivesse sido ela, tinha
sido outra pessoa. E em minha certeza de que havia sido ela, a admirei. Ela era
mais do que um fantasma, era um anjo da morte que não deixava vestígios. Eu
tinha que encontrá-la.
No dia seguinte, ao invés
de ir ao trabalho, fui visitar uma desconhecida. Não cheguei a pensar muito no
que estava fazendo, só peguei impulso e fui procurar a moça que havia sido
vitima do estuprador que morreu enforcado. O que eu queria? Não sei bem ao
certo. Aliás, sei muito bem. Eu queria ouvir a voz do meu anjo mais uma vez.
Queria ter certeza da existência dela, que não era fruto da minha imaginação e
foi nesses pensamentos que fiquei perdida covardemente por 30 minutos na frente
da casa da vítima anônima da reportagem. Sim, anônima. Apesar disso, não foi
muito difícil de encontrá-la. Eu não sabia o endereço dela, nem rosto, nem
mesmo sua voz, mas eu sabia o endereço do estuprador (que foi divulgado na
reportagem). Depois disso foi fácil. Ela era uma vizinha, assim como no meu próprio
caso. Por meio das perguntas certas à algumas pessoas da vizinhança cheguei até
ela. Mas quando cheguei em sua porta, não tive coragem de bater ou chamar até
que ela mesma me tirasse dos meus pensamentos.
–Oi, ta procurando alguém?
–Ah... oi – Eu disse
desajeitada.
Eu disse a ela que eu
estava procurando e o por que e ela me disse para eu ir embora. “Não posso”, eu
disse “porque aconteceu comigo também”. Vi a compreensão em seus olhos e ela me
convidou para entrar.
Ela me revelou o pesadelo
que era viver daquele jeito. Se abriu comigo como duvido que tenha se aberto
com outras pessoas. Me contou entre lágrimas como aconteceu e as ameaças que
sofria diariamente e até a coragem que tirou do fundo de seu espírito para
denunciar ele, por medo. Quando ela me contou, eu refleti que minha situação
não era tão ruim. Eu não sofria ameaças. Mesmo assim, a humilhação sofrida era
a mesma. Ela disse que não aguentava mais e já não sabia o que fazer. Foi como
se um anjo da guarda tivesse respondido suas preces.
–Ela tinha uma voz bonita?
– Perguntei em minha distração.
–Como você sabe sobre ela?
Eu não devia ter dito nada
a respeito, mas eu sou muito distraída.
–Não se preocupa, não vou
dizer nada sobre isso para ninguém. Ela também fez o mesmo por mim – Confessei.
Após um momento de silêncio,
a moça me olhou nos olhos. Estava com sua face molhada de tantas lágrimas.
Depositando em mim confiança que não depositaria em ninguém mais ela continuou.
–Ela disse que faria isso
se eu quisesse, era só eu pedir. Disse que era um trabalho voluntário que
sobrevivia de doações.
–Então se conhecem?
–Não, na verdade. Ela me
disse que faria o trabalho primeiro, e realmente o fez – Nesse ponto ela
demonstrou um ar de admiração e agradecimento em sua voz que parecia o meu
próprio após o que ela fez por mim – E combinou comigo, no mesmo contato, um
local e um dia para levar o dinheiro. Ela nunca mais entraria em contato comigo
depois disso, e foi o que ela fez. Ela nem mesmo disse um apelido ou nome
falso. Só desapareceu.
O silêncio tomou conta do
recinto por um tempo, até a moça falar de novo.
–Mas sabe o que ela faz
realmente? – perguntou.
–Não.
–Ela nos dá a chance de
viver sem medo outra vez – Disse por fim.
3
Descobri depois de um
tempo que meu anjo da morte era bastante ativo e, no entanto não criava um perfil
de crimes iguais nem cometia erros que a deixariam exposta. Ela também não se
envolvia em todos os casos de estupro, imagino que para evitar ser citada em
depoimentos específicos. De algum modo ela podia selecionar a quem ela iria
ajudar com algum tipo de pesquisa minuciosa ou seleção de suas “clientes”. E
ela parecia muito boa nisso.
Durante
minha busca, eu visitei diversas vítimas de estupro. Algumas eu levava semanas
até encontrar endereços e a maioria, ainda por cima, não fazia parte da seleção
dela. As que faziam (e que revelaram
isso) eram pessoas muito discretas, sem muito contato com pessoas no geral. As
que tinham um considerável círculo de amizades tinham que ser reservadas. Ela,
meu Anjo da Morte, não escolhia clientes que chamavam muita atenção ou que
tinham vida pública. E mesmo com suas clientes de costume, entrava em contato
sempre por números que não podiam ser identificados e nunca passava informações
à respeito de si própria. Além disso, era possível que ela não tivesse nenhuma
relação anterior com nenhum dos estupradores mortos e nem com suas vítimas,
fazendo dela alguém que basicamente não existe em termos criminais. Exceto
pelos locais que escolhia para recolher o dinheiro, era impossível localizá-la.
O
entusiasmo inicial por seus feitos e métodos foi diminuindo com o tempo. Eu não
estava indo a lugar algum. Com o tempo eu parei de persegui-la, mas nunca
desisti de encontrá-la. Mesmo assim, eu parei de procurar. Só que parece que eu
não era a única procurando alguma coisa.
Um
dia, depois do trabalho, eu fui fazer compras numa padaria que fica perto da
minha casa. Como de costume, a padaria estava bem cheia e eu, cansada na fila
que ia devagar, não estava reparando em ninguém.
–Desistiu de procurar seu
fantasma? – Disse uma voz bem próxima
do meu ouvido.
Um arrepio percorreu meu
corpo todo, começando por minha nuca.
–Eu gosto de chamá-la de
Anjo da Morte – Eu disse baixo. Achei incrível a frase ter saído sem cortes.
–Gostei do nome – Disse a
voz alegre atrás de mim.
Eu não sabia o que fazer.
Naquele momento eu estava parada na fila de pagamento. A fila estava andando um
pouco devagar assim como meu raciocínio.
–Não quer mais saber como
eu sou? – Perguntou ela, de repente.
Fiquei pensando se eu
deveria largar minhas compras e sair da fila com ela, mas o bom senso disse
para que eu só me virasse.
–O...oi. – Eu disse de uma
forma bem miserável, olhando para os pés dela.
–Você está bem pálida –
Disse ela levantando meu queixo com a mão e me mostrando o sorriso mais lindo
que já vi.
Seus olhos eram
castanho-escuros, quase negros. Ela era bem branquinha e tinha cabelo longo e ruivo
(mas não era natural). Era incrivelmente bonita. Quer dizer, eu não esperava
que ela tivesse tanta beleza quanto sua voz. Mas era possível que fosse ainda
mais bonita que sua voz. Além disso, ela era atraente de forma que poucas
mulheres costumam ser. Não para um homem, mas para uma outra mulher. Ela
poderia não existir, exceto pelo fato de que estava na minha frente.
–Vo-você quer alguma
coisa? – Perguntei me sentindo uma estúpida.
Ela chegou bem perto do
meu ouvido de novo.
–A fila ta andando, daqui
a pouco começam a gritar com a gente – Sussurrou.
Eu me virei desengonçada,
quase caindo e paguei as compras. Segurei minha vontade de sair correndo e
fiquei do lado dela. Ela recolheu metade das compras e me deu um sorriso.
–Posso te levar até sua
casa? – Ela perguntou.
–Claro.
E fomos andando em silêncio. Eu não
sabia o que devia dizer, mas ela não parecia incomodada comigo. Entramos na
minha Kitnet e eu pedi pra ela ficar a vontade e não reparar na bagunça.
–Que bagunça? – Ela
perguntou. Antes que eu respondesse, ela completou num tom alegre – sua casa é
bem bonita.
–Obrigada – Eu disse,
ainda muito desconsertada.
Ela me observou
demonstrando preocupação.
–Você está bem? Eu cheguei
num momento ruim?
Eu me senti envergonhada.
Não deveria estar tão quieta assim.
–Você é muito bonita – Eu
disse.
Meio que a peguei desprevenida.
Ela ficou surpresa e desviou o olhar.
–Não sou – Disse.
–Claro que é! É só olhar
no espelho.
Ela fixou o olhar em mim
por um momento e eu vi uma outra mulher por trás daqueles olhos. O tom alegre
que tinha e que a deixava mais nova ficou submerso em algum lugar naquela nova
personalidade. Só então eu pude ver o resquício de seu espírito que parecia
bastante desgastado. Quase não havia mais confiança ali para ser depositado em
alguém.
–Tudo em mim é falso, até
meus sorrisos.
–Não acredito – Eu disse.
Sem cerimônia ela retirou
a peruca ruiva – que não dava para notar que era peruca até então – e seu
cabelo por baixo era negro e curto. Não me choquei. Me senti atraída por ela
sendo quem ela de fato era, daquele jeito sério e profundo, do que tentando
aparentar alegria. Me aproximei bastante dela.
–Entendeu agora?
Me olhou profundamente com
aqueles olhos grandes, negros e indecifráveis. Eu senti sua respiração em meu
rosto. Era doce. Olhei para seus lábios e tinham um desenho muito bonito.
–Não vejo falsidade
nenhuma – Eu disse – Você fica ainda mais bonita de cabelo curto.
Ela ficou sem jeito por um
instante. Eu sorri pra ela em retorno e fui até a mesa começar a preparar um
lanche.
–Parece egoísmo eu te
procurar? – ela disse.
–Não, por que pareceria?
Além do mais eu te devo um favor.
Ela parecia meio
envergonhada com isso.
–Eu não vim para te cobrar
nada.
A essa altura eu já me
sentia mais a vontade. Me sentei e fiquei olhando pra ela.
–Todo mundo precisa de
ajuda, só o que varia é o tipo – Sorri pra ela enquanto ela me observava –
Senta aqui.
Ela sentou e continuou me
observando.
–Você não acha estranho? –
Ela disse.
–O quê?
–Isso que eu faço. O que
eu fiz.
Parei um pouco para
pensar.
–Não, na verdade. Quando
me dei conta a primeira vez, eu achei algo bastante frio – Eu disse enquanto
refletia olhando para a mesa – Só que antes de te procurar, eu entendi que você
faz o que ninguém mais tem coragem de fazer.
–O quê?
–Cortar o mal pela raiz –
Disse olhando nos olhos dela dessa vez.
Ficamos caladas por um
tempo, uma de frente para a outra, separadas por uma mesa.
–Eu sabia que você era
diferente – Ela disse de repente.
Era minha vez de ser pega
desprevenida.
Ela sorriu. Era um sorriso
bem verdadeiro e confortável.
–Obrigada – Ela disse.
De repente eu fiquei muito
vermelha. Eu sentia que eu que deveria estava agradecendo.
–Pelo quê? – Perguntei,
ainda envergonhada.
–Obrigada por manter sua
promessa.
–Promessa?
–A de continuar viva.
–Ah... –E eu sentia meu
rosto tomando outra tonalidade progressivamente. Ela me deu um sorriso daqueles
que uma criança dá quando apronta alguma coisa. Ela era duas mulheres em um
mesmo corpo, uma que era quase uma criança e uma outra que era quase uma anciã.
Eu não sabia o que falar
então comecei a comer. Ela riu de mim e por um tempo silenciamos as duas, mas
não era um silêncio incômodo. Era confortável. Ela ficou me observando e quando
nossos olhares se cruzaram mais uma vez, percebi que ela estava com um olhar
contente dessa vez e com uma expressão muito mais leve.
–Você me escutaria se eu
te contasse tudo?
–Claro! – Eu não via
motivos para não escutar.
Mais um tempo em silêncio. Ela
suspirou antes de começar.
–O problema é que eu sou
uma covarde – Ela disse de repente.
–Como assim? – Fiquei
impressionada com a afirmativa dela.
Na minha mente as pessoas
poderiam criar várias opiniões sobre aquela mesma mulher – que às vezes parecia
quase uma menina – se soubessem sobre a vida intima dela. Mas dentre todos os
adjetivos pensáveis e imagináveis, covarde não se encaixava ali.
–Quando meu pai morreu –
Ela começou – minha mãe trouxe esse homem para dentro de casa. Era um
desgraçado safado e ela não sabia ou não queria ver. Quando fiquei mais velha,
eu tomei coragem e falei pra ela tudo que tinha acontecido nas poucas vezes que
não consegui fugir dele. Ela me machucou de forma que jamais eu poderia
esquecer, primeiro no rosto com um tapa depois no coração e, por fim,
trucidando minha fé nas pessoas. Fugi de casa. Fui morar com tios meus por um
tempo. Tentei não explicar nada, só falei que as coisas em casa estavam
difíceis – eu tinha decidido não falar disso pra ninguém mais –, mas tive que
voltar depois de um tempo, por falta de opção. Ouvi palavras de saudade de uma
mulher que eu já não reconhecia mais como mãe e ganhei um abraço que já não mais
retribuiria. Algo em mim já estava morto desde aquela época. Aprendi a sumir
sempre que o crápula estava lá. E quando tive a chance, eu sumi de vez da vida
deles.
“O problema é que meu
orgulho tinha sido roubado. E eu estava machucada de uma forma tão profunda que
constantemente me machucava como uma ferida que nunca cicatriza, que fica
eternamente inflamada te lembrando da dor da derrota e da humilhação. Começou
apenas como pensamentos, dos que acredito que todo mundo tenha. Algumas pessoas
a gente deseja mal, outras desejamos constantemente que morram e saiam da nossa
vida para sempre. Mas depois de um tempo esses pensamentos foram mudando e eu
tinha imagens da morte dele partindo de mim, não de causas acidentais ou
naturais. Morei por muito tempo em outro estado onde fiz muitas amizades enquanto
mudava constantemente as vezes ficando nas casas de várias pessoas por falta de
lugar para ficar. Fui pagando cursos com bicos que arranjei e por fim acabei me
tornando promotora de eventos. Em alguns anos, a ferida latejava tanto que eu
tive que voltar para cá, mesmo sem um foco definido. Minha ferida estava
aberta. Eu precisava ver esse imbecil morto.”
“Quando cheguei, falei com
alguns contatos meus e consegui acessar os e-mails dele. Eu não precisava de
muito, só precisava da certeza que eu não fui a única vítima, talvez para ter a
certeza que não agiria por vingança somente. Um pequeno incentivo já estaria
bom, e lá estava. Algumas pastas com conteúdo de pedofilia. Planejei a melhor
forma de fazer isso de forma que parecesse acidental. Estava pronta para fazer,
até ficar observando minha mãe sem ela saber. Via ela cozinhando, lavando
roupas, sendo a dona de casa que ela queria ser. Era ridículo ela fazer aquilo
por aquele filho da puta. Mas por mais que soubesse o que era certo, perdi a
coragem. Resolvi deixar pra lá e viver minha vida. Tive que recomeçar, já que
os contatos eram outros. Comecei a trabalhar de novo com eventos
incessantemente para pegar o mesmo ritmo e para esquecer de tudo o mais, mas
parece que esse negócio de carma é como um chiclete daqueles que grudam no
nosso sapato e não largam mais. Um dos meus clientes tinha tesão por mim e
quando pôde, me prendeu contra a parede falando absurdos tipo ‘agora que
estamos nós dois, você não precisa fingir. Eu sei que você quer’. A raiva que
eu senti não era possível medir. Ele apertou meu rosto com os dedos da mão,
ficou falando coisas nojentas no meu ouvido e quando ele se afastou eu cuspi na
cara dele. Tentei correr, mas ele me segurou pelo braço e acho que, por quase
reflexo me deu um tapa com as costas das mãos, forte o suficiente para me
derrubar. Felizmente para mim, isso era suficiente para fazer o babaca ir
preso. Quando me levantei ele começou a tentar formular uma ameaça quando cheguei
bem perto dele e acertei o veado no saco, só para me sentir um pouco melhor.
Ele foi pra cadeia e eu fui liberta de mim mesma de novo. Depois disso eu me
senti enojada e decidi que já passava da hora de por um fim em pelo menos um
dos que merecia.”
“O problema é que quando
eu iria definitivamente fazer o que tinha voltado para fazer, fui passada para
trás. Ele sofreu um AVC uma semana antes. Eu não tive oportunidade de dar cabo
no desgraçado. Se pelo menos eu tivesse agido antes...”
–A culpa não foi sua – Eu
disse.
–Mas deveria ter sido,
essa é a questão. Eu queria ter feito isso.
–Mas se tivesse feito,
provavelmente teria ido para a cadeia.
–E não me sentiria tão
horrível por ser impotente.
É engraçado que antes de
conhecermos as pessoas pessoalmente acabamos projetando-as diferentemente de
como realmente são. Como um filho nos primeiros anos de vida que imagina o pai
como um ser invencível que nada abala e que tudo é capaz de fazer. Ela era
humana, assim como eu e acima de tudo era frustrada consigo mesma por algo que
nunca poderia realizar, mas ela era ao mesmo tempo única no que fazia. De forma
alguma ela era impotente aos meus olhos. Eu disse isso pra ela. Em seguida levantei
da mesa e abracei suas costas e tentei fazer ela se sentir melhor.
–Se você tivesse feito
isso – falei para ela – nós poderíamos nunca estar conversando como agora.
Ela enrubesceu. Ficamos em
silêncio por mais alguns minutos comigo grudada nela. Eu não queria soltar. De
repente, percebi que eu nunca tinha sentido tanto afeto por ninguém antes. Nos
olhamos naquela posição engraçada e percebi que estava com o rosto quase
grudado no dela. Eu podia sentir seu hálito quente e doce no meu rosto. De
repente eu nem pensei direito no que estava fazendo, só roubei um beijo dela. Depois
roubei mais um e outro. Então ela se levantou, meu coração bateu forte por
alguns momentos tentando adivinhar o que ia acontecer, mas ela só se levantou
para que pudéssemos continuar o que tínhamos começado. Nos enroscamos e
continuamos a nos beijar até atingir uma das paredes da casa. O mundo fugiu sob
meus pés naquele instante. Tudo que pude sentir era o calor do corpo dela
contra o meu. Suas mãos – que eram pequenas e delicadas – procuravam meu corpo.
Minhas mãos, por sua vez, encontraram lugar em sua nuca e cintura. Nosso fôlego
era um só. Nossos corpos, nossas línguas, nossas respirações em uníssono. Tudo
nosso. E ela, mais uma vez, me trouxe à vida.
Acredito que poucas vezes
na vida nós, humanos fazemos amor. Muitas vezes só fazemos sexo. A diferença é
muito maior que simples sutileza. Não é questão de ser homem ou mulher, é
questão de essência, de entendimento e de encaixe. Fluímos como dois córregos
que deságuam no mesmo rio. Como a brisa fresca que complementa o campo aberto.
Éramos maravilhosas juntas. Percorremos nossos corpos com a naturalidade de
duas amantes que se conhecem bem. Ela me levou onde homem nenhum foi capaz de
me levar.
Ao fim, percebi que
estávamos na minha cama.
Ficamos conversando
baixinho uma com a outra, por um tempo. Falamos de relacionamentos passados. Falamos
por alto sobre desejos pessoais. Ela me disse que tinha medo das pessoas e
achou que a melhor coisa que teria feito era se isolar, a ironia é que quando
trabalhava com eventos antes disso, conhecia muita gente diferente e distinta.
Me disse que foi assim que aprendeu a reconhecer tipos de pessoas e suas
reações mais comuns. Também teve alguns namorados nessa época e que nem todos
eram ruins, mas depois de um tempo não via mais graça nem vontade por homem
nenhum. Falei dos meus relacionamentos também e dos seus términos inevitáveis.
Depois ficamos quietas olhando uma para a outra e trocando carícias até que
adormeci nos braços dela.
Não sei se dormi meia hora
ou uma hora, mas quando acordei, ela ainda me olhava. Estava com um olhar
distante, pensativo. Percebi que os olhos dela estavam mais claros agora.
–Uma moeda por seus
pensamentos.
–Uma fortuna para
esquecê-los – Disse com carinho.
Ficamos quietas por um
tempo, uma admirando o olhar da outra até que ela falou:
–Eu nunca tinha conseguido
fugir dos meus pensamentos até conhecer você – Ela disse.
Eu sorri pra ela.
–Se sente viva de novo? –
Perguntei.
–Exatamente isso.
–É como você faz sentir
cada uma das que você salva, sabia?
Ela ficou envergonhada e
desviou o olhar.
–Não sabia – Revelou.
–Conversei com muitas
delas durante esses meses. E todas que tinham tido contato com você tiveram uma
nova chance de viver.
Depois de um tempo bem
quieta, ela me olhou de novo. Apesar da força que eu nunca vi em nenhuma
mulher, ela era frágil como uma flor, cujas pétalas podem cair com um simples
soprar de vento. Eu vi essa fragilidade em seus olhos, tão lindos e meigos como
de uma criança e ao mesmo tempo antigos como de alguém que viu coisas horríveis
bem de perto.
–Eu não me lembro quando
me senti tão viva antes de você – Ela me disse.
Nos beijamos
carinhosamente. Depois de arrumar meu cabelo, ela me contou como aconteceu a
primeira vez:
– A primeira vez que fiz
isso, eu nem sabia ao certo o que estava fazendo – Ela começou – Escutei uma
conversa entre duas estranhas num restaurante qualquer certa vez, e soube que
alguém havia estragado a vida de uma delas e que ainda continuava estragando
com ameaças de morte se ela contasse qualquer coisa pra alguém. Soube o nome,
local de trabalho e aparência. Tudo isso com uma conversa na mesa de trás.
“De repente algo despertou
dentro de mim. Eu tinha que agir, pelo menos dessa vez.
Depois de tomar coragem, me
preparei bem para o meu primeiro crime. Passei e repassei meus planos antes de
agir. Antes de tudo, comprei três perucas diferentes e cortei meu cabelo bem
curto. Comprei luvas, comprei roupas novas, comecei a criar personagens e nomes
falsos. Mas nem de tudo isso foi necessário em todos os casos. Mas esse
específico foi bem trabalhado.
Esperei por ele na porta
do trabalho com o intuito de chamar a atenção. Estava com uma roupa
propositalmente apertada. Inventei uma empresa e uma entrevista. Com uma
prancheta, uma caneta e uma folha de papel com itens de pesquisa o convenci a
dar informações pessoais. Ele deu em cima de mim facilmente, fingi retribuir a
cantada e quando ele pediu meu telefone, senti o primeiro gosto da vitória.
Passei o número de um dos chips que eu tinha comprado e dentro de algumas horas
ele ligou e marcamos um encontro numa lanchonete para que em seguida
seguíssemos para um motel – que ele ainda não sabia que eu iria aceitar
fingindo ser a mulher mais fácil do ano. Achei que não teria coragem de
prosseguir, mas lá estava eu fazendo algo que julguei loucura. Estava de luvas
de couro, levando um canivete afiado, algemas e calmantes junto com bebida. O
que era visível a ele – Algemas, bebida e luvas –, era fetiche. A garrafa de
vinho estava aberta e expliquei que era porque assaltei da casa de uma amiga.
Ela não ia beber então era desperdício deixar na geladeira. Dentro da garrafa
eu já tinha transformado em uma mistura homogênea junto ao calmante. Fingi
beber enquanto ele estava no banho e dei pra ele acabar com o resto. Essa parte
foi fácil. Mas o que não estava no plano era ele revirar a minha bolsa pra
descobrir o que eu tinha trazido. As algemas e os óculos escuros caíram, mas
quando ele viu o canivete ficou furioso. Perguntou pra que eu andava com aquilo
e eu disse “por proteção”. Ele não perguntou mais nada, mas não tinha engolido.
Dava pra ver que o calmante era de efeito rápido já que aparentemente ele não
conseguia manter o foco e muito menos o raciocínio. Estava lá parado em pé fixo
em um ponto qualquer do quarto como se tivessem feito lobotomia nele. Tinha
retrocedido para seu ponto mais irracional. De repente, sem aviso, ele me
empurrou na mesa do quarto, de forma que eu bati com as costelas. Senti uma dor
quente e horrível. Eu perdi o ar por um tempo e antes que eu pudesse levantar,
ele sentou em cima de mim e ficou olhando meio débil. Depois sorriu de forma
ainda mais estranha, que era acentuado com aquele olhar de maldade sem
inteligência. Ele começou a tentar tirar minha roupa e quando não conseguia,
rasgou. Em nenhum momento eu gritei, mas não consegui deixar de chorar. Me
senti humilhada por isso. Mas eu tinha que suportar. Só precisava de mais algum
tempo. Rezei para um Deus que não sabia se existia enquanto ele tentava, sem
sucesso, abrir minha calça. E como se Ele
tivesse escutado minhas preces, o homem caiu para o lado desacordado. Em
desespero eu me soltei desajeitada e de forma apressada das pernas dele, chorei
mais. Encharquei o carpete e minhas mãos. Acho que fiquei paralisada em torno
de vinte minutos e tremia muito. Mas eu tentei me controlar.”
“Eu tinha que terminar o
que tinha começado. Juntei tudo que ele tinha espalhado de volta na bolsa. E
procurei bem para ver se estava tudo lá. Não tinha trazido muita coisa para
evitar ter provas substanciais contra mim. Deixei sobre a cama as algemas, o
canivete, a carteira dele e as chaves do carro. O arrastei com muita
dificuldade para fora do quarto, na garagem, voltei ao quarto para pegar as
algemas e o canivete, o algemei no corrimão da escada externa e fiquei ali
parada com a arma do crime em minha mão trêmula. O toldo da garagem estava
abaixado e eu poderia ser vista se alguém passasse com o carro bem devagar, mas
ninguém fazia isso. Meu tempo não era muito mais longo. Ou eu terminava o que
tinha começado, ou minha vida deixaria de ter sentido ali mesmo, pois seria a
segunda falha.”
“Sentei de frente para o
moribundo e fiquei pensando em quão miserável ele parecia com a baba escorrendo
e metade da boca aberta. Fiquei pensando em quão miserável eu mesma me sentia
por ser tão fraca, e estar com uma possível contusão e com a roupa rasgada.
Senti pena dele, mas só até lembrar do motivo de estar ali. Então, sem muita
cerimônia, eu enfiei o canivete no pescoço dele e puxei da esquerda para a direita
para que abrisse um pouco mais e ele morresse mais rápido. Meu coração batia
forte. Eu sentia vontade de sair correndo, mas estava fascinada com a
facilidade daquilo, por mais difícil que tenha sido tomar o ímpeto inicial.
Quer dizer... É só isso? Ele não tenta fugir da morte e nem sabe que está
morrendo e pronto, acabou o jogo para ele. E eu dizia para mim mesma ‘é, é
isso’. A vida em si é muito frágil, não passa de uma luta para continuar
existindo, mas que com um tropeço tudo acaba. Por isso, quando te conheci
naquele fórum eu disse que achava que a vida não tinha sentido. Porque,
diferente do que as pessoas acreditam, não acontece nada na hora ‘H’ para
impedir um assassinato. Ninguém intervém em um estupro quando está acontecendo
um. Ninguém ‘sente’ que algo errado está ocorrendo em algum lugar. O mundo é
somente isso: Fatos, o que acontece e o que deixa de acontecer. Se há provas
contra você, ou não. Não existe nada além disso, apenas sua consciência. E com
esse pensamento eu me levantei. Escutei ele tentando sobreviver inutilmente se
afogando no próprio sangue enquanto tentava respirar inconsciente do que
ocorria. O som que ele fazia era como um porco gruindo, sendo obrigado pela
posição a morrer sentado. Com um ultimo olhar naquele idiota quase morto, tomei
cuidado para não pisar no sangue e não deixar marcas no chão e entrei de volta
no quarto para lavar minhas luvas e observar meu hematoma nas costelas. Doía
muito ainda. Eu queria que não fosse uma fratura. Lavei as luvas e o canivete.
Verifiquei cuidadosamente se eu estava sangrando, mas não estava. A única coisa
que faltava era uma roupa reserva, se bem que poderia ter sido pior. Eu ainda
tinha sutiã e a roupa daria para ser usada até chegar em casa. Sai do quarto para
verificar se ele estava morto – Apenas à distância para evitar qualquer
descuido –, observei por aproximadamente 15 minutos, só para ter certeza de que
se ele fosse para a emergência depois que achassem o corpo não conseguiriam
reanimá-lo mesmo assim, em seguida liguei para a recepção para pagar a conta.
Com o dinheiro dele, e nada de cartões. Efetuei o pagamento pela pequena
abertura na porta que permite ao cliente e negociante um pouco de privacidade,
coloquei meus óculos no rosto, coloquei a carteira no bolso, tive cuidado de
não pisar no sangue ao passar pela escada e fui embora com o carro do morto. A
ideia de levar a carteira era para dificultar o reconhecimento do corpo e assim
ganharia mais tempo, o que funcionou muito bem. Deixei o carro bem longe do
motel, voltei para casa de ônibus morrendo de vergonha com a minha roupa e
bastante psicótica pensando que tinha cometido um erro qualquer que poderia me
identificar. Mas não cometi. O motorista, cobrador e os passageiros do ônibus
não fizeram ligação entre uma coisa e outra, já que as cidades eram bem
distantes. Não havia ligação entre eu e a vítima. Não nos conhecíamos antes
daquele dia. Não fui vista. Só havia câmeras na porta de entrada do motel, e
ainda assim não pegava o meu rosto. Não havia formas de chegar até mim, e
apesar de ter sido ferida, não sofri nada grave e, por sorte, havia 3 mil na
carteira, que compensava maiores danos imediatos. Mas ainda assim, o carro
estava na mesma cidade onde peguei o ônibus. Se alguém mais inteligente tivesse
percebido, talvez eu ainda podia ter sido presa.”
Ela terminou de contar com
um ar tranqüilo de alguém que conta sobre uma viagem peculiar. A observei por
vários instantes.
–Obrigada
– Ela disse.
–Não é
difícil te escutar. Você poderia escrever um livro sobre suas histórias.
Ela
sorriu.
–Eu
nunca contei isso para ninguém, sabia?
–Eu
também não contaria.
Fiquei
agarrada sonolenta nela e acabei pegando no sono de novo mais uma vez.
Quando acordei novamente, já estava quase amanhecendo ela
já tinha ido embora. Mesmo em seu silêncio eu pude sentir que estávamos unidas.
Em sua ausência eu ainda tinha seu cheiro, sua voz, seus olhos e toda sua
essência. Eu tinha a certeza que viramos confidentes de uma forma única. Eu
tinha dado a ela um presente e ela me deu algo mais.
Um anjo da morte tinha me trazido de volta para a vida.

Mano tu é um gênio, parabéns vei, conseguiu escrever um conto com uma visão totalmente difente da sua, tua escrita tá ótima também, estou ansioso para os próximos :D
ResponderExcluirAah, e eu gostei bastante da historia
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