terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Anjo da Morte







Anjo da Morte

            Quando somos bem pequenas, aprendemos pela mídia que um homem num cavalo branco, chamado preferivelmente de “Príncipe” vai vir nos salvar da nossa vida miserável e nos fazer ser felizes para sempre.
            Não é verdade.
            Em geral a natureza do homem sobrepõe a fantasia da mulher e isso é o que cria destruição massiva de corações. Ou de vidas inteiras, em alguns casos.
A minha seria um desses casos se ela não tivesse aparecido.
Eu não tinha mais autoestima, nem mesmo conseguia ver beleza no meu corpo. O espelho era meu pior inimigo. Não passava mais maquiagem e acredito que estava desenvolvendo síndrome do pânico.
O meu reflexo me incomodava ao ponto de sentir repulsa.
Você sentiria nojo de si mesma?
            O motivo é bem simples. Odiar o que você própria representa para si, o que você foi e o que vai ser. Odiar o que é o seu corpo e o que ele te remete, que marcas foram feitas nele. Que cicatrizes nunca irão desaparecer.
Quando reflito sobre todas essas pequenas tragédias na vida de tantas mulheres, eu a entendo.
A primeira vez que pensei sobre o que ela fazia, me parecia muito frio. Mas a partir da segunda vez, já apoiava ela de corpo e alma.
Nojo. É um sentimento cruel para uma mulher. Um sentimento que homem nenhum jamais entenderia. Até porque, geralmente são eles que nos causam isso.
Algumas de nós dizem sentir nojo de homens. Mas é por nós mesmas que sentimos isso. O desprezo começa primeiro de dentro.
Pensando bem, ela tinha razão em tudo.

Nossa história começou há alguns meses. A história dela, individualmente tem muito mais tempo. E em nossa história nos tornamos o refúgio uma da outra. Viramos confidentes, viramos irmãs. Viramos amantes.
Aconteceu que eu fui estuprada.
Eu não sei se eu deveria enrolar para dizer uma coisa dessas. Há algum tempo eu não diria, mesmo que em um pedaço de papel. Antes eu tinha medo até mesmo que "ele" lesse meus pensamentos no momento em que eu cogitasse os expor. Mesmo assim eu passei por cima disso. Foi difícil, mas foi minha salvação.
Eu contei num fórum sobre suicídios. Eu queria saber formas de me matar. Você pode achar absurdo, eu não te culpo. Mas tenta pensar no que é um homem entrar na sua casa, tomar o seu corpo a força e te fazer valer menos que lixo. Eu não entendi na ocasião. Ainda não entendo. Como entender o que leva uma pessoa a fazer isso? Até agora eu não sei muito bem como olhar nos olhos dos outros, principalmente de homens. Penso inclusive, que cada um deles guarda um monstro latente dentro de si.
Ela me diz que não precisa ser assim, que nem todos são monstros. Engraçado ela dizendo esse tipo de coisa, aliás.
Depois de pedir conselhos sobre maneiras de me suicidar sem muita sujeira, dor ou problemas, uma pessoa começou a conversar comigo. Uma entre várias que me deram receitas diferentes para suicídios efetivos. Ela, no entanto, estava interessada em mim, na minha causa. Não na minha morte.
É engraçado, não é? Como a gente confia em completos estranhos em momentos de desespero, mesmo num momento que não confiamos nem em nós mesmos. E eu não pensei duas vezes. Eu disse para ela. Eu disse que eu não me suportava e, ou eu morria ou aquele desgraçado morria. Mas como ele ia morrer? Como sempre, parece improvável que o mal aconteça com quem o merece. Na verdade, toda vez que o via no caminho para o trabalho ou mesmo na vizinhança ele parecia bem saudável. Ninguém jamais enxerga os monstros por baixo das máscaras. Ninguém vê o que alguém pode ser realmente. E por algum distúrbio que nunca entenderei algumas vezes, as pessoas más recebem melhores contribuições do universo do que as pessoas boas. Então qual é o sentido disso?
Ela me disse que não tinha nenhum. A vida não tem um sentido ou um propósito. O único propósito que a vida tem é o que atribuímos a ela.
Acreditei por um instante que ela me faria mudar de ideia, mas só o que ela me pediu era um tempo e eu veria algo inesperado. Eu, mesmo sem conhecê-la, esperei mesmo assim.
Depois de um tempo é só o que podemos fazer: esperar.
Eu esperava todos os dias. Esperava por algo bom na minha vida. Por algo catastrófico na vida dele. Mas eu estava me iludindo, eu pensava. Até que um dia ele apareceu morto num matagal perto de casa. Garganta cortada e carteira roubada. Latrocínio. Não encontraram o autor do crime. Eu fiquei chocada. Me senti culpada pelo que aconteceu, como se os meus desejos tivessem se tornado realidade inesperadamente. Mas por mais que eu não admitisse no momento, eu fiquei muito aliviada.
Aliviada porque não ia sentir meu coração pesar toda vez que aquele demônio cínico me sorrisse na rua como se não me conhecesse ou como se nem soubesse o que fazia com as pessoas. Ou pior, como se soubesse, mas dissesse com seu sorriso que ninguém mais sabia, só eu e ele.
Eu estava chocada, mas estava em paz.
Depois de um tempo, minha vida recomeçou. Eu poderia tocar ela pra frente de novo agora que eu não seria mais assombrada por ele. Resolvi mudar de emprego. Comecei a pensar também em mudar de endereço, e o fiz. Mesmo que ele estivesse morto, tínhamos conhecidos em comum em todos os lugares. Eu não tinha que olhar para a cara deles. Eu poderia cuidar da minha vida dali em diante, sem ninguém por perto. Eu tinha pelo menos a liberdade de sumir, como bem eu entendesse.
Na ocasião, não me lembrei da conversa com ela. Mas as coisas foram se tornando mais claras quando ela me ligou.
–Alô – Eu disse.
–Oi – Disse uma voz feminina do outro lado
–Quem fala?
–Um fantasma.
A única coisa que pensei foi que a fantasma tinha uma voz bonita.
–E o que um fantasma deseja de mim?
–Apenas que entenda que o mundo é uma teia. E que nós mesmos é que tecemos tudo isso.
De repente a compreensão.
–Você é a...
–Exatamente – Fez uma pausa – Também sou sua libertadora.
–Entendo.. – Eu então devia para ela? – Então você me fez um serviço...
–Sim.
–Quanto eu te devo?
–Nada. Eu gostei de você. Geralmente eu cobro antes, mesmo que uma doação singela, mas por algum motivo que não sei dizer, você é diferente.
Eu não sei como deveria me sentir. É difícil ouvir isso das pessoas. Acho que ela não tinha porque guardar segredos. Eu nem mesmo sabia o nome real dela, ou o rosto, ou nada.
–Aliás, você me deve algo sim – Ela disse.
–O quê?
–Uma promessa de continuar viva.
Não era difícil. Eu não sentia mais necessidade em me matar.
–Eu prometo.
–Ok, vê se cumpre sua promessa, viu? – e desligou.
Chamada anônima. Sem registro, sem nome, sem endereço. Ela era realmente um fantasma. E como um fantasma descobre seu telefone quando você nem mesmo se identifica numa rede social e muda de casa e de emprego, eu não saberia te dizer. Mas fantasmas permanecem na sua vida, não importa o que se faça. E ela permaneceu, mas por um tempo apenas como uma espécie de sonho que ainda não decidimos se é ou não real.

2

Depois desse episódio eu não ouvi mais falar dela e não recebi nenhuma outra chamada anônima. Ela tinha desaparecido no ar da mesma forma que havia aparecido, como o fantasma que afirmava ser. Por meses eu visitei o fórum no qual nos falamos a primeira vez, e nem sinal dela. Nem mesmo um rastro de fumaça. Quase desisti. Foi quando eu vi uma reportagem na TV que me chamou a atenção. Era, até então, uma reportagem comum que se vê e se descarta diariamente. Só que depois do que aconteceu comigo, nenhum tipo de notícia ligada à estupro se torna uma notícia meramente comum. "Jovem acusado de estupro é solto por falta de provas”, era o que dizia a reportagem. Foi inocentado e salvo de morrer como boneca na prisão. Mas quando a justiça convencional falha, alguma outra pode começar a funcionar. Foi assim que meu rastro de fumaça reapareceu e eu pude localizar sua fogueira.
O “inocente” morreu enforcado em sua própria casa após tomar uma dose extra de remédios controlados, e essa noticia foi ao ar no dia seguinte. O pensamento comum levaria à suicídio pela culpa. Já que foi inocentado, era melhor para sua consciência que ele mesmo desse cabo em sua vida. Mas qual é a falha lógica nesse caso? Simples coisas como a expressão dele ao ser inocentado, por exemplo. Não existia culpa ali. Homem auto-suficiente não sente culpa nem remorso. Esse era o meu jogo dos sete erros. Ela era meu objetivo.
Eu poderia estar completamente errada. Aquela minha salvadora misteriosa, minha fantasma, podia não ter nada com isso. Mas era claro como o dia. Se não tivesse sido ela, tinha sido outra pessoa. E em minha certeza de que havia sido ela, a admirei. Ela era mais do que um fantasma, era um anjo da morte que não deixava vestígios. Eu tinha que encontrá-la.
No dia seguinte, ao invés de ir ao trabalho, fui visitar uma desconhecida. Não cheguei a pensar muito no que estava fazendo, só peguei impulso e fui procurar a moça que havia sido vitima do estuprador que morreu enforcado. O que eu queria? Não sei bem ao certo. Aliás, sei muito bem. Eu queria ouvir a voz do meu anjo mais uma vez. Queria ter certeza da existência dela, que não era fruto da minha imaginação e foi nesses pensamentos que fiquei perdida covardemente por 30 minutos na frente da casa da vítima anônima da reportagem. Sim, anônima. Apesar disso, não foi muito difícil de encontrá-la. Eu não sabia o endereço dela, nem rosto, nem mesmo sua voz, mas eu sabia o endereço do estuprador (que foi divulgado na reportagem). Depois disso foi fácil. Ela era uma vizinha, assim como no meu próprio caso. Por meio das perguntas certas à algumas pessoas da vizinhança cheguei até ela. Mas quando cheguei em sua porta, não tive coragem de bater ou chamar até que ela mesma me tirasse dos meus pensamentos.
–Oi, ta procurando alguém?
–Ah... oi – Eu disse desajeitada. 
Eu disse a ela que eu estava procurando e o por que e ela me disse para eu ir embora. “Não posso”, eu disse “porque aconteceu comigo também”. Vi a compreensão em seus olhos e ela me convidou para entrar.
Ela me revelou o pesadelo que era viver daquele jeito. Se abriu comigo como duvido que tenha se aberto com outras pessoas. Me contou entre lágrimas como aconteceu e as ameaças que sofria diariamente e até a coragem que tirou do fundo de seu espírito para denunciar ele, por medo. Quando ela me contou, eu refleti que minha situação não era tão ruim. Eu não sofria ameaças. Mesmo assim, a humilhação sofrida era a mesma. Ela disse que não aguentava mais e já não sabia o que fazer. Foi como se um anjo da guarda tivesse respondido suas preces.
–Ela tinha uma voz bonita? – Perguntei em minha distração.
–Como você sabe sobre ela?
Eu não devia ter dito nada a respeito, mas eu sou muito distraída.
–Não se preocupa, não vou dizer nada sobre isso para ninguém. Ela também fez o mesmo por mim – Confessei.
Após um momento de silêncio, a moça me olhou nos olhos. Estava com sua face molhada de tantas lágrimas. Depositando em mim confiança que não depositaria em ninguém mais ela continuou.
–Ela disse que faria isso se eu quisesse, era só eu pedir. Disse que era um trabalho voluntário que sobrevivia de doações.
–Então se conhecem?
–Não, na verdade. Ela me disse que faria o trabalho primeiro, e realmente o fez – Nesse ponto ela demonstrou um ar de admiração e agradecimento em sua voz que parecia o meu próprio após o que ela fez por mim – E combinou comigo, no mesmo contato, um local e um dia para levar o dinheiro. Ela nunca mais entraria em contato comigo depois disso, e foi o que ela fez. Ela nem mesmo disse um apelido ou nome falso. Só desapareceu.
O silêncio tomou conta do recinto por um tempo, até a moça falar de novo.
–Mas sabe o que ela faz realmente? – perguntou.
–Não.
–Ela nos dá a chance de viver sem medo outra vez – Disse por fim.

3
Descobri depois de um tempo que meu anjo da morte era bastante ativo e, no entanto não criava um perfil de crimes iguais nem cometia erros que a deixariam exposta. Ela também não se envolvia em todos os casos de estupro, imagino que para evitar ser citada em depoimentos específicos. De algum modo ela podia selecionar a quem ela iria ajudar com algum tipo de pesquisa minuciosa ou seleção de suas “clientes”. E ela parecia muito boa nisso.
            Durante minha busca, eu visitei diversas vítimas de estupro. Algumas eu levava semanas até encontrar endereços e a maioria, ainda por cima, não fazia parte da seleção dela. As que faziam (e que revelaram isso) eram pessoas muito discretas, sem muito contato com pessoas no geral. As que tinham um considerável círculo de amizades tinham que ser reservadas. Ela, meu Anjo da Morte, não escolhia clientes que chamavam muita atenção ou que tinham vida pública. E mesmo com suas clientes de costume, entrava em contato sempre por números que não podiam ser identificados e nunca passava informações à respeito de si própria. Além disso, era possível que ela não tivesse nenhuma relação anterior com nenhum dos estupradores mortos e nem com suas vítimas, fazendo dela alguém que basicamente não existe em termos criminais. Exceto pelos locais que escolhia para recolher o dinheiro, era impossível localizá-la.
            O entusiasmo inicial por seus feitos e métodos foi diminuindo com o tempo. Eu não estava indo a lugar algum. Com o tempo eu parei de persegui-la, mas nunca desisti de encontrá-la. Mesmo assim, eu parei de procurar. Só que parece que eu não era a única procurando alguma coisa.
            Um dia, depois do trabalho, eu fui fazer compras numa padaria que fica perto da minha casa. Como de costume, a padaria estava bem cheia e eu, cansada na fila que ia devagar, não estava reparando em ninguém.
–Desistiu de procurar seu fantasma? – Disse uma voz bem próxima do meu ouvido.
Um arrepio percorreu meu corpo todo, começando por minha nuca.
–Eu gosto de chamá-la de Anjo da Morte – Eu disse baixo. Achei incrível a frase ter saído sem cortes.
–Gostei do nome – Disse a voz alegre atrás de mim.
Eu não sabia o que fazer. Naquele momento eu estava parada na fila de pagamento. A fila estava andando um pouco devagar assim como meu raciocínio.
–Não quer mais saber como eu sou? – Perguntou ela, de repente.
Fiquei pensando se eu deveria largar minhas compras e sair da fila com ela, mas o bom senso disse para que eu só me virasse.
–O...oi. – Eu disse de uma forma bem miserável, olhando para os pés dela.
–Você está bem pálida – Disse ela levantando meu queixo com a mão e me mostrando o sorriso mais lindo que já vi.
Seus olhos eram castanho-escuros, quase negros. Ela era bem branquinha e tinha cabelo longo e ruivo (mas não era natural). Era incrivelmente bonita. Quer dizer, eu não esperava que ela tivesse tanta beleza quanto sua voz. Mas era possível que fosse ainda mais bonita que sua voz. Além disso, ela era atraente de forma que poucas mulheres costumam ser. Não para um homem, mas para uma outra mulher. Ela poderia não existir, exceto pelo fato de que estava na minha frente.
–Vo-você quer alguma coisa? – Perguntei me sentindo uma estúpida.
Ela chegou bem perto do meu ouvido de novo.
–A fila ta andando, daqui a pouco começam a gritar com a gente – Sussurrou.
Eu me virei desengonçada, quase caindo e paguei as compras. Segurei minha vontade de sair correndo e fiquei do lado dela. Ela recolheu metade das compras e me deu um sorriso.
–Posso te levar até sua casa? – Ela perguntou.
–Claro.
E fomos andando em silêncio. Eu não sabia o que devia dizer, mas ela não parecia incomodada comigo. Entramos na minha Kitnet e eu pedi pra ela ficar a vontade e não reparar na bagunça.
–Que bagunça? – Ela perguntou. Antes que eu respondesse, ela completou num tom alegre – sua casa é bem bonita.
–Obrigada – Eu disse, ainda muito desconsertada.
Ela me observou demonstrando preocupação.
–Você está bem? Eu cheguei num momento ruim?
Eu me senti envergonhada. Não deveria estar tão quieta assim.
–Você é muito bonita – Eu disse.
Meio que a peguei desprevenida. Ela ficou surpresa e desviou o olhar.
–Não sou – Disse.
–Claro que é! É só olhar no espelho.
Ela fixou o olhar em mim por um momento e eu vi uma outra mulher por trás daqueles olhos. O tom alegre que tinha e que a deixava mais nova ficou submerso em algum lugar naquela nova personalidade. Só então eu pude ver o resquício de seu espírito que parecia bastante desgastado. Quase não havia mais confiança ali para ser depositado em alguém.
–Tudo em mim é falso, até meus sorrisos.
–Não acredito – Eu disse.
Sem cerimônia ela retirou a peruca ruiva – que não dava para notar que era peruca até então – e seu cabelo por baixo era negro e curto. Não me choquei. Me senti atraída por ela sendo quem ela de fato era, daquele jeito sério e profundo, do que tentando aparentar alegria. Me aproximei bastante dela.
–Entendeu agora?
Me olhou profundamente com aqueles olhos grandes, negros e indecifráveis. Eu senti sua respiração em meu rosto. Era doce. Olhei para seus lábios e tinham um desenho muito bonito.
–Não vejo falsidade nenhuma – Eu disse – Você fica ainda mais bonita de cabelo curto.
Ela ficou sem jeito por um instante. Eu sorri pra ela em retorno e fui até a mesa começar a preparar um lanche.
–Parece egoísmo eu te procurar? – ela disse.
–Não, por que pareceria? Além do mais eu te devo um favor.
Ela parecia meio envergonhada com isso.
–Eu não vim para te cobrar nada.
A essa altura eu já me sentia mais a vontade. Me sentei e fiquei olhando pra ela.
–Todo mundo precisa de ajuda, só o que varia é o tipo – Sorri pra ela enquanto ela me observava – Senta aqui.
Ela sentou e continuou me observando.
–Você não acha estranho? – Ela disse.
–O quê?
–Isso que eu faço. O que eu fiz.
Parei um pouco para pensar.
–Não, na verdade. Quando me dei conta a primeira vez, eu achei algo bastante frio – Eu disse enquanto refletia olhando para a mesa – Só que antes de te procurar, eu entendi que você faz o que ninguém mais tem coragem de fazer.
–O quê?
–Cortar o mal pela raiz – Disse olhando nos olhos dela dessa vez.
Ficamos caladas por um tempo, uma de frente para a outra, separadas por uma mesa.
–Eu sabia que você era diferente – Ela disse de repente.
Era minha vez de ser pega desprevenida.
Ela sorriu. Era um sorriso bem verdadeiro e confortável.
–Obrigada – Ela disse.
De repente eu fiquei muito vermelha. Eu sentia que eu que deveria estava agradecendo.
–Pelo quê? – Perguntei, ainda envergonhada.
–Obrigada por manter sua promessa.
–Promessa?
–A de continuar viva.
–Ah... –E eu sentia meu rosto tomando outra tonalidade progressivamente. Ela me deu um sorriso daqueles que uma criança dá quando apronta alguma coisa. Ela era duas mulheres em um mesmo corpo, uma que era quase uma criança e uma outra que era quase uma anciã.
Eu não sabia o que falar então comecei a comer. Ela riu de mim e por um tempo silenciamos as duas, mas não era um silêncio incômodo. Era confortável. Ela ficou me observando e quando nossos olhares se cruzaram mais uma vez, percebi que ela estava com um olhar contente dessa vez e com uma expressão muito mais leve.
–Você me escutaria se eu te contasse tudo?
–Claro! – Eu não via motivos para não escutar.
Mais um tempo em silêncio. Ela suspirou antes de começar.
–O problema é que eu sou uma covarde – Ela disse de repente.
–Como assim? – Fiquei impressionada com a afirmativa dela.
Na minha mente as pessoas poderiam criar várias opiniões sobre aquela mesma mulher – que às vezes parecia quase uma menina – se soubessem sobre a vida intima dela. Mas dentre todos os adjetivos pensáveis e imagináveis, covarde não se encaixava ali.
–Quando meu pai morreu – Ela começou – minha mãe trouxe esse homem para dentro de casa. Era um desgraçado safado e ela não sabia ou não queria ver. Quando fiquei mais velha, eu tomei coragem e falei pra ela tudo que tinha acontecido nas poucas vezes que não consegui fugir dele. Ela me machucou de forma que jamais eu poderia esquecer, primeiro no rosto com um tapa depois no coração e, por fim, trucidando minha fé nas pessoas. Fugi de casa. Fui morar com tios meus por um tempo. Tentei não explicar nada, só falei que as coisas em casa estavam difíceis – eu tinha decidido não falar disso pra ninguém mais –, mas tive que voltar depois de um tempo, por falta de opção. Ouvi palavras de saudade de uma mulher que eu já não reconhecia mais como mãe e ganhei um abraço que já não mais retribuiria. Algo em mim já estava morto desde aquela época. Aprendi a sumir sempre que o crápula estava lá. E quando tive a chance, eu sumi de vez da vida deles.
“O problema é que meu orgulho tinha sido roubado. E eu estava machucada de uma forma tão profunda que constantemente me machucava como uma ferida que nunca cicatriza, que fica eternamente inflamada te lembrando da dor da derrota e da humilhação. Começou apenas como pensamentos, dos que acredito que todo mundo tenha. Algumas pessoas a gente deseja mal, outras desejamos constantemente que morram e saiam da nossa vida para sempre. Mas depois de um tempo esses pensamentos foram mudando e eu tinha imagens da morte dele partindo de mim, não de causas acidentais ou naturais. Morei por muito tempo em outro estado onde fiz muitas amizades enquanto mudava constantemente as vezes ficando nas casas de várias pessoas por falta de lugar para ficar. Fui pagando cursos com bicos que arranjei e por fim acabei me tornando promotora de eventos. Em alguns anos, a ferida latejava tanto que eu tive que voltar para cá, mesmo sem um foco definido. Minha ferida estava aberta. Eu precisava ver esse imbecil morto.”
“Quando cheguei, falei com alguns contatos meus e consegui acessar os e-mails dele. Eu não precisava de muito, só precisava da certeza que eu não fui a única vítima, talvez para ter a certeza que não agiria por vingança somente. Um pequeno incentivo já estaria bom, e lá estava. Algumas pastas com conteúdo de pedofilia. Planejei a melhor forma de fazer isso de forma que parecesse acidental. Estava pronta para fazer, até ficar observando minha mãe sem ela saber. Via ela cozinhando, lavando roupas, sendo a dona de casa que ela queria ser. Era ridículo ela fazer aquilo por aquele filho da puta. Mas por mais que soubesse o que era certo, perdi a coragem. Resolvi deixar pra lá e viver minha vida. Tive que recomeçar, já que os contatos eram outros. Comecei a trabalhar de novo com eventos incessantemente para pegar o mesmo ritmo e para esquecer de tudo o mais, mas parece que esse negócio de carma é como um chiclete daqueles que grudam no nosso sapato e não largam mais. Um dos meus clientes tinha tesão por mim e quando pôde, me prendeu contra a parede falando absurdos tipo ‘agora que estamos nós dois, você não precisa fingir. Eu sei que você quer’. A raiva que eu senti não era possível medir. Ele apertou meu rosto com os dedos da mão, ficou falando coisas nojentas no meu ouvido e quando ele se afastou eu cuspi na cara dele. Tentei correr, mas ele me segurou pelo braço e acho que, por quase reflexo me deu um tapa com as costas das mãos, forte o suficiente para me derrubar. Felizmente para mim, isso era suficiente para fazer o babaca ir preso. Quando me levantei ele começou a tentar formular uma ameaça quando cheguei bem perto dele e acertei o veado no saco, só para me sentir um pouco melhor. Ele foi pra cadeia e eu fui liberta de mim mesma de novo. Depois disso eu me senti enojada e decidi que já passava da hora de por um fim em pelo menos um dos que merecia.”
“O problema é que quando eu iria definitivamente fazer o que tinha voltado para fazer, fui passada para trás. Ele sofreu um AVC uma semana antes. Eu não tive oportunidade de dar cabo no desgraçado. Se pelo menos eu tivesse agido antes...”
–A culpa não foi sua – Eu disse.
–Mas deveria ter sido, essa é a questão. Eu queria ter feito isso.
–Mas se tivesse feito, provavelmente teria ido para a cadeia.
–E não me sentiria tão horrível por ser impotente.
É engraçado que antes de conhecermos as pessoas pessoalmente acabamos projetando-as diferentemente de como realmente são. Como um filho nos primeiros anos de vida que imagina o pai como um ser invencível que nada abala e que tudo é capaz de fazer. Ela era humana, assim como eu e acima de tudo era frustrada consigo mesma por algo que nunca poderia realizar, mas ela era ao mesmo tempo única no que fazia. De forma alguma ela era impotente aos meus olhos. Eu disse isso pra ela. Em seguida levantei da mesa e abracei suas costas e tentei fazer ela se sentir melhor.
–Se você tivesse feito isso – falei para ela – nós poderíamos nunca estar conversando como agora.
Ela enrubesceu. Ficamos em silêncio por mais alguns minutos comigo grudada nela. Eu não queria soltar. De repente, percebi que eu nunca tinha sentido tanto afeto por ninguém antes. Nos olhamos naquela posição engraçada e percebi que estava com o rosto quase grudado no dela. Eu podia sentir seu hálito quente e doce no meu rosto. De repente eu nem pensei direito no que estava fazendo, só roubei um beijo dela. Depois roubei mais um e outro. Então ela se levantou, meu coração bateu forte por alguns momentos tentando adivinhar o que ia acontecer, mas ela só se levantou para que pudéssemos continuar o que tínhamos começado. Nos enroscamos e continuamos a nos beijar até atingir uma das paredes da casa. O mundo fugiu sob meus pés naquele instante. Tudo que pude sentir era o calor do corpo dela contra o meu. Suas mãos – que eram pequenas e delicadas – procuravam meu corpo. Minhas mãos, por sua vez, encontraram lugar em sua nuca e cintura. Nosso fôlego era um só. Nossos corpos, nossas línguas, nossas respirações em uníssono. Tudo nosso. E ela, mais uma vez, me trouxe à vida.
Acredito que poucas vezes na vida nós, humanos fazemos amor. Muitas vezes só fazemos sexo. A diferença é muito maior que simples sutileza. Não é questão de ser homem ou mulher, é questão de essência, de entendimento e de encaixe. Fluímos como dois córregos que deságuam no mesmo rio. Como a brisa fresca que complementa o campo aberto. Éramos maravilhosas juntas. Percorremos nossos corpos com a naturalidade de duas amantes que se conhecem bem. Ela me levou onde homem nenhum foi capaz de me levar.
Ao fim, percebi que estávamos na minha cama.
Ficamos conversando baixinho uma com a outra, por um tempo. Falamos de relacionamentos passados. Falamos por alto sobre desejos pessoais. Ela me disse que tinha medo das pessoas e achou que a melhor coisa que teria feito era se isolar, a ironia é que quando trabalhava com eventos antes disso, conhecia muita gente diferente e distinta. Me disse que foi assim que aprendeu a reconhecer tipos de pessoas e suas reações mais comuns. Também teve alguns namorados nessa época e que nem todos eram ruins, mas depois de um tempo não via mais graça nem vontade por homem nenhum. Falei dos meus relacionamentos também e dos seus términos inevitáveis. Depois ficamos quietas olhando uma para a outra e trocando carícias até que adormeci nos braços dela.
Não sei se dormi meia hora ou uma hora, mas quando acordei, ela ainda me olhava. Estava com um olhar distante, pensativo. Percebi que os olhos dela estavam mais claros agora.
–Uma moeda por seus pensamentos.
–Uma fortuna para esquecê-los – Disse com carinho.
Ficamos quietas por um tempo, uma admirando o olhar da outra até que ela falou:
–Eu nunca tinha conseguido fugir dos meus pensamentos até conhecer você – Ela disse.
Eu sorri pra ela.
–Se sente viva de novo? – Perguntei.
–Exatamente isso.
–É como você faz sentir cada uma das que você salva, sabia?
Ela ficou envergonhada e desviou o olhar.
–Não sabia – Revelou.
–Conversei com muitas delas durante esses meses. E todas que tinham tido contato com você tiveram uma nova chance de viver.
Depois de um tempo bem quieta, ela me olhou de novo. Apesar da força que eu nunca vi em nenhuma mulher, ela era frágil como uma flor, cujas pétalas podem cair com um simples soprar de vento. Eu vi essa fragilidade em seus olhos, tão lindos e meigos como de uma criança e ao mesmo tempo antigos como de alguém que viu coisas horríveis bem de perto.
–Eu não me lembro quando me senti tão viva antes de você – Ela me disse.
Nos beijamos carinhosamente. Depois de arrumar meu cabelo, ela me contou como aconteceu a primeira vez:
– A primeira vez que fiz isso, eu nem sabia ao certo o que estava fazendo – Ela começou – Escutei uma conversa entre duas estranhas num restaurante qualquer certa vez, e soube que alguém havia estragado a vida de uma delas e que ainda continuava estragando com ameaças de morte se ela contasse qualquer coisa pra alguém. Soube o nome, local de trabalho e aparência. Tudo isso com uma conversa na mesa de trás.
“De repente algo despertou dentro de mim. Eu tinha que agir, pelo menos dessa vez.
Depois de tomar coragem, me preparei bem para o meu primeiro crime. Passei e repassei meus planos antes de agir. Antes de tudo, comprei três perucas diferentes e cortei meu cabelo bem curto. Comprei luvas, comprei roupas novas, comecei a criar personagens e nomes falsos. Mas nem de tudo isso foi necessário em todos os casos. Mas esse específico foi bem trabalhado.
Esperei por ele na porta do trabalho com o intuito de chamar a atenção. Estava com uma roupa propositalmente apertada. Inventei uma empresa e uma entrevista. Com uma prancheta, uma caneta e uma folha de papel com itens de pesquisa o convenci a dar informações pessoais. Ele deu em cima de mim facilmente, fingi retribuir a cantada e quando ele pediu meu telefone, senti o primeiro gosto da vitória. Passei o número de um dos chips que eu tinha comprado e dentro de algumas horas ele ligou e marcamos um encontro numa lanchonete para que em seguida seguíssemos para um motel – que ele ainda não sabia que eu iria aceitar fingindo ser a mulher mais fácil do ano. Achei que não teria coragem de prosseguir, mas lá estava eu fazendo algo que julguei loucura. Estava de luvas de couro, levando um canivete afiado, algemas e calmantes junto com bebida. O que era visível a ele – Algemas, bebida e luvas –, era fetiche. A garrafa de vinho estava aberta e expliquei que era porque assaltei da casa de uma amiga. Ela não ia beber então era desperdício deixar na geladeira. Dentro da garrafa eu já tinha transformado em uma mistura homogênea junto ao calmante. Fingi beber enquanto ele estava no banho e dei pra ele acabar com o resto. Essa parte foi fácil. Mas o que não estava no plano era ele revirar a minha bolsa pra descobrir o que eu tinha trazido. As algemas e os óculos escuros caíram, mas quando ele viu o canivete ficou furioso. Perguntou pra que eu andava com aquilo e eu disse “por proteção”. Ele não perguntou mais nada, mas não tinha engolido. Dava pra ver que o calmante era de efeito rápido já que aparentemente ele não conseguia manter o foco e muito menos o raciocínio. Estava lá parado em pé fixo em um ponto qualquer do quarto como se tivessem feito lobotomia nele. Tinha retrocedido para seu ponto mais irracional. De repente, sem aviso, ele me empurrou na mesa do quarto, de forma que eu bati com as costelas. Senti uma dor quente e horrível. Eu perdi o ar por um tempo e antes que eu pudesse levantar, ele sentou em cima de mim e ficou olhando meio débil. Depois sorriu de forma ainda mais estranha, que era acentuado com aquele olhar de maldade sem inteligência. Ele começou a tentar tirar minha roupa e quando não conseguia, rasgou. Em nenhum momento eu gritei, mas não consegui deixar de chorar. Me senti humilhada por isso. Mas eu tinha que suportar. Só precisava de mais algum tempo. Rezei para um Deus que não sabia se existia enquanto ele tentava, sem sucesso, abrir minha calça. E como se Ele tivesse escutado minhas preces, o homem caiu para o lado desacordado. Em desespero eu me soltei desajeitada e de forma apressada das pernas dele, chorei mais. Encharquei o carpete e minhas mãos. Acho que fiquei paralisada em torno de vinte minutos e tremia muito. Mas eu tentei me controlar.”
“Eu tinha que terminar o que tinha começado. Juntei tudo que ele tinha espalhado de volta na bolsa. E procurei bem para ver se estava tudo lá. Não tinha trazido muita coisa para evitar ter provas substanciais contra mim. Deixei sobre a cama as algemas, o canivete, a carteira dele e as chaves do carro. O arrastei com muita dificuldade para fora do quarto, na garagem, voltei ao quarto para pegar as algemas e o canivete, o algemei no corrimão da escada externa e fiquei ali parada com a arma do crime em minha mão trêmula. O toldo da garagem estava abaixado e eu poderia ser vista se alguém passasse com o carro bem devagar, mas ninguém fazia isso. Meu tempo não era muito mais longo. Ou eu terminava o que tinha começado, ou minha vida deixaria de ter sentido ali mesmo, pois seria a segunda falha.”
“Sentei de frente para o moribundo e fiquei pensando em quão miserável ele parecia com a baba escorrendo e metade da boca aberta. Fiquei pensando em quão miserável eu mesma me sentia por ser tão fraca, e estar com uma possível contusão e com a roupa rasgada. Senti pena dele, mas só até lembrar do motivo de estar ali. Então, sem muita cerimônia, eu enfiei o canivete no pescoço dele e puxei da esquerda para a direita para que abrisse um pouco mais e ele morresse mais rápido. Meu coração batia forte. Eu sentia vontade de sair correndo, mas estava fascinada com a facilidade daquilo, por mais difícil que tenha sido tomar o ímpeto inicial. Quer dizer... É só isso? Ele não tenta fugir da morte e nem sabe que está morrendo e pronto, acabou o jogo para ele. E eu dizia para mim mesma ‘é, é isso’. A vida em si é muito frágil, não passa de uma luta para continuar existindo, mas que com um tropeço tudo acaba. Por isso, quando te conheci naquele fórum eu disse que achava que a vida não tinha sentido. Porque, diferente do que as pessoas acreditam, não acontece nada na hora ‘H’ para impedir um assassinato. Ninguém intervém em um estupro quando está acontecendo um. Ninguém ‘sente’ que algo errado está ocorrendo em algum lugar. O mundo é somente isso: Fatos, o que acontece e o que deixa de acontecer. Se há provas contra você, ou não. Não existe nada além disso, apenas sua consciência. E com esse pensamento eu me levantei. Escutei ele tentando sobreviver inutilmente se afogando no próprio sangue enquanto tentava respirar inconsciente do que ocorria. O som que ele fazia era como um porco gruindo, sendo obrigado pela posição a morrer sentado. Com um ultimo olhar naquele idiota quase morto, tomei cuidado para não pisar no sangue e não deixar marcas no chão e entrei de volta no quarto para lavar minhas luvas e observar meu hematoma nas costelas. Doía muito ainda. Eu queria que não fosse uma fratura. Lavei as luvas e o canivete. Verifiquei cuidadosamente se eu estava sangrando, mas não estava. A única coisa que faltava era uma roupa reserva, se bem que poderia ter sido pior. Eu ainda tinha sutiã e a roupa daria para ser usada até chegar em casa. Sai do quarto para verificar se ele estava morto – Apenas à distância para evitar qualquer descuido –, observei por aproximadamente 15 minutos, só para ter certeza de que se ele fosse para a emergência depois que achassem o corpo não conseguiriam reanimá-lo mesmo assim, em seguida liguei para a recepção para pagar a conta. Com o dinheiro dele, e nada de cartões. Efetuei o pagamento pela pequena abertura na porta que permite ao cliente e negociante um pouco de privacidade, coloquei meus óculos no rosto, coloquei a carteira no bolso, tive cuidado de não pisar no sangue ao passar pela escada e fui embora com o carro do morto. A ideia de levar a carteira era para dificultar o reconhecimento do corpo e assim ganharia mais tempo, o que funcionou muito bem. Deixei o carro bem longe do motel, voltei para casa de ônibus morrendo de vergonha com a minha roupa e bastante psicótica pensando que tinha cometido um erro qualquer que poderia me identificar. Mas não cometi. O motorista, cobrador e os passageiros do ônibus não fizeram ligação entre uma coisa e outra, já que as cidades eram bem distantes. Não havia ligação entre eu e a vítima. Não nos conhecíamos antes daquele dia. Não fui vista. Só havia câmeras na porta de entrada do motel, e ainda assim não pegava o meu rosto. Não havia formas de chegar até mim, e apesar de ter sido ferida, não sofri nada grave e, por sorte, havia 3 mil na carteira, que compensava maiores danos imediatos. Mas ainda assim, o carro estava na mesma cidade onde peguei o ônibus. Se alguém mais inteligente tivesse percebido, talvez eu ainda podia ter sido presa.”
Ela terminou de contar com um ar tranqüilo de alguém que conta sobre uma viagem peculiar. A observei por vários instantes.
–Obrigada – Ela disse.
–Não é difícil te escutar. Você poderia escrever um livro sobre suas histórias.
Ela sorriu.
–Eu nunca contei isso para ninguém, sabia?
–Eu também não contaria.
Fiquei agarrada sonolenta nela e acabei pegando no sono de novo mais uma vez.
            Quando acordei novamente, já estava quase amanhecendo ela já tinha ido embora. Mesmo em seu silêncio eu pude sentir que estávamos unidas. Em sua ausência eu ainda tinha seu cheiro, sua voz, seus olhos e toda sua essência. Eu tinha a certeza que viramos confidentes de uma forma única. Eu tinha dado a ela um presente e ela me deu algo mais.
            Um anjo da morte tinha me trazido de volta para a vida.

2 comentários:

  1. Mano tu é um gênio, parabéns vei, conseguiu escrever um conto com uma visão totalmente difente da sua, tua escrita tá ótima também, estou ansioso para os próximos :D

    ResponderExcluir
  2. Aah, e eu gostei bastante da historia

    ResponderExcluir